Brasília, 23 (AE) - Com uma dívida de cerca de R$ 7 milhões, o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Lacerda, encontrou uma nova maneira de fugir da cobrança dos índios, que a cada dia chegam em maior número a Brasília. Lacerda contratou por R$ 28,5 mil, sem licitação, uma empresa para mudar seu gabinete e restringir o acesso dos índios.
A medida foi tomada depois da série de invasões e ameaças ocorridas nos últimos dois meses ao velho prédio da Funai, na 902 Sul, em Brasília. Para executar a obra com maior rapidez, a Procuradoria Jurídica da Funai autorizou o gasto sem licitação, com base em um artigo da Lei de Licitações que permite a despesa desde que a segurança de pessoas, serviços e equipamentos públicos ou particulares estejam comprometidos.
"Já aconteceu de funcionário não vir trabalhar por sentir-se inseguro", disse o coordenador de Assuntos Externos da Funai, José Roberto Lustosa. "A medida não é para cercear o direito de ir e vir dos índios". Outros funcionários garantem, no entanto, que o sumiço de objetos de escritório também contribuiu para a Funai decidiu pela mudança nos gabinetes de Márcio Lacerda e de outros diretores.
Dívidas - As dívidas da Funai vem desde 1995 e chegam a R$ 6,8 milhões.Quase todas são das administrações regionais, onde a instituição não tem mais crédito nem para comprar remédios para os índios, que estão viajando a Brasília, onde cobram ajuda diretamente do presidente da Funai. Isso tem causado mais despesa com seis pensões que abrigam índios no DF - a dívida chega a R$ 689 mil .
Pressionado pelos índios, Lacerda já foi obrigado a despachar no Ministério da Justiça, há alguns dias, enquanto alguns funcionários eram mantidos como reféns de alguns grupos. Então tomou a decisão de controlar o acesso ao prédio da Funai. Há pouco mais de um mês, o próprio presidente da Funai foi mantido como refém de um grupo de xavantes em seu gabinete.
Na segunda-feira, os episódios voltaram a repetir-se. Um grupo de índios pancararus, de Pernambuco, que estavam armados com arcos, flechas e bordunas, invadiu o gabinete do coordenador de Planejamento e Orçamento da Funai, José Menezes, na tentativa de forçá-lo a liberar recursos para aldeia. Em duas semanas, a Polícia Militar foi acionada três vezes para impedir uma ação violenta dos índios.
"É preciso criar projetos alternativos para os índios"
diz Lacerda. "Hoje as aldeias estão crescendo e o fluxo de índios em Brasília está sendo muito grande", acrescenta o presidente da Funai, afirmando que muitas vezes as lideranças que chegam à sede da fundação, em Brasília, não têm intenção de brigar. Entretanto, o problema são os caciques tradicionais. "Com eles, temos muitas dificuldades de negociar", diz Lacerda.
A Funai já mantém um grupo de seguranças que não impedem as ações dos índios. Normalmente elas são planejadas com dias de antecedência, mas nenhum grupo se mistura ao outro. Cada qual tem suas técnicas e reivindicações. Atualmente, ainda estão em Brasília integrantes dos grupos xavante, pancararu, caiapó, fulni-ô, caiová, terena e caigangue. Todos dispostos a radicalizar caso não tenham suas reivindicações atendidas. Muitas vezes a pressão dá certo, tanto é que 20% das dívidas das administrações regionais foi para atender os xavante.

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