Pressão leva pais a desistir de aborto
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de dezembro de 1997
Sílvio Barsetti Agência Estado Rio de Janeiro 
Raimundo Valetim/Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
ApeloDiante do Instituto, o casal Felipe e Katrin Braga segura a faixa contra o aborto da garota: Salvem a criança A menina M., de 11 anos, vítima de estupro, não fará aborto. A microcesariana estava marcada para ontem, no Instituto Municipal Fernando Magalhães, no Rio. O aborto havia sido autorizado pelo juiz Luiz Mangabeira, da cidade de Sapucaia (RJ), a pedido dos pais, Valter de Oliveira e Maria da Conceição. O casal foi convencido a manter a gestação por um obstetra, Altamiro Satler Filho, de Minas Gerais, e do pároco de Sapucaia, Luis Fraga. Terça-feira, o cardeal-arcebispo do Rio, dom Eugênio Salles, criticou a decisão do juiz.
O obstetra disse a Oliveira que M. poderia manter a gravidez sem problemas. O padre Luis Fraga, após contatos com a Arquidiocese do Rio, ressaltou que o bebê não era culpado pelo que ocorreu e deveria ter a oportunidade de viver. O pai da menor, acompanhado do padre e do obstetra, conversou com a mulher, que aceitou cancelar a cirurgia. A menina, assistida por uma psicóloga, recebeu a nova determinação dos pais com indiferença. Ela ficou quieta, contou sua mãe.
Terça-feira no fim da tarde, a Comissão de Defesa da Vida da Diocese de São José dos Campos, em São Paulo, enviou fax ao prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde (PFL), pedindo que o aborto não fosse feito. A diocese oferecia serviço hospitalar com assistência pré-natal e pós-natal e acolhimento à M., seu bebê e a mãe da menor, com habitação, alimentação e vestuário. Conde determinou então que o secretário municipal de Saúde, Ronaldo Gazolla, entrasse em contato com a direção do Instituto Fernando Magalhães para avisar aos pais de M. da proposta.
FaixaIsso reafirmou a idéia de Oliveira de abrir mão do aborto, contou a diretora do Instituto, Carmem Athayde. Ela acrescentou que, durante vários dias, o Instituto recebeu dezenas de telefonemas, alguns em apoio ao aborto e outros em protesto. Chegaram a nos chamar de assassinos, disse. Na véspera, dom Eugenio Sales usou o mesmo termo para criticar a interrupção de gravidez de M.
Ontem um casal de paulistas, Felipe Braga, de 28 anos, e Katrin Braga, de 27 anos, esteve no Rio com os quatro filhos para se manifestar contra o aborto. Felipe é taquígrafo e ganhou um dia de folga para fazer o protesto. O casal estendeu na entrada do Instituto uma faixa com a frase: Depois da violência do estupro, não deixem M. passar pelo drama do aborto. Salvem a criança. Os dois confessaram que chegaram a pensar em retirar o primeiro filho, nascido há 5 anos, mas que após muita conversa resolveram não fazer o aborto. Graças a Deus, estaríamos muito arrependidos hoje, disse Felipe.
A médica Elizabeth Cerqueira, da diocese de São José dos Campos, esteve no fim da tarde no Instituto, acompanhada de outras duas colegas diocesanas, para convencer a mãe de M. a se mudar para São José dos Campos.


