Pressão faz crianças virarem adultos
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domingo, 11 de março de 2007
Maíra Teixeira<br>Agência Estado 
O ritual é sempre o mesmo toda noite, no quarto de Rafaela, de 7 anos. Ela separa o material da escola, depois o uniforme impecável, acessórios como o cinto, um arco ou prendedor de cabelo, a bolsa que vai usar, o celular e seus respectivos enfeites. Na pia do banheiro, ela deixa o batom e a sombra, devidamente combinando com os acessórios escolhidos. ''Quando quero ficar bonita mesmo passo o delineador, mas aí tenho de acordar mais cedo porque ainda não sou rápida como a minha mãe'', diz Rafaela.
O fato de ela se produzir tanto chegou a incomodar uma professora, que chamou a mãe para conversar. ''A professora me disse que ela era uma das melhores alunas da classe, mas que estava preocupada porque achava que era sempre responsável demais para uma criança de 7 anos. Meio sem graça, ela disse que as roupas de Rafaela eram de adultas e eu deveria incentivá-la a brincar mais e explicar as diferenças entre adulto e criança'', conta a mãe, que não quis ter a identidade revelada.
Depois da conversa, a mãe ficou impressionada. ''Se a professora não avaliasse a situação eu estaria achando normal até hoje. Só então comecei a refletir e vi que ela era precoce demais. Tive de rever um monte de coisas e levei a Rafaela para a terapia, porque não me senti preparada. O fato é que as coisas acontecem rápido demais e nós (pais) temos dificuldade em acompanhar.''
Para Fernanda Mendes Aguiar, psicóloga especialista em psicopatologia pela Universidade de São Paulo (USP), a sociedade hoje cobra e impõe, mesmo que involuntariamente, isso às crianças. ''Exigimos que elas sejam responsáveis e se tornem adultas antes do tempo. É preciso ficar atento a esses sinais e promover brincadeiras para combatê-los, devem exercitar o lúdico.''
Ela pondera que, como brincadeira, imitar os adultos não prejudica. ''Mas quando a brincadeira é excessiva pode ocorrer a perda da infância ou de parte dessa fase tão importante para a formação da pessoa.''
Hoje não é difícil encontrar nas escolas alunas que deixam de brincar para fazer tarefas e estudar antecipadamente para as provas. ''O que não pode acontecer é ultrapassar o limite da brincadeira e ser totalmente responsável nessa fase.'' Para a especialista, quando isso acontece é ruim porque a criança perde a espontaneidade, a vivência da infância e ocorre uma sobrecarga de responsabilidade.
Na verdade, essas meninas fazem isso porque não gostam de ser cobradas, então se adiantam.
Como o professor passa muito tempo com os alunos dá para ajudar e tentar, com os pais, reverter isso. ''O professor tem de ficar atento quando a criança assume responsabilidades que são de adultos.''


