Pressão do câmbio nos preços será maior no 1º semestre
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quarta-feira, 03 de fevereiro de 1999
Por Márcia de Chiara 
São Paulo, 03 (AE) - O maior impacto da desvalorização do câmbio no Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe) deverá ocorrer no primeiro semestre, quando a inflação acumulada poderá atingir 5%, para um índice anual estimado em 7% e de 8% projetado em 12 meses a contar de fevereiro.
O pico da alta de preços é esperado para abril e maio, quando a inflação mensal deverá chegar a 1,2%. Para fevereiro e março, a previsão é de que o IPC fique em 0,5% e 0,7%, respectivamente, segundo um dos coordenadores do IPC, Heron do Carmo. "Abril e maio serão as piores épocas", diz o economista.
Se a estimativa se confirmar, fevereiro, que normalmente registra um índice baixo, terá neste ano a maior variação desde 1995.
Segundo o economista, o efeito da desvalorização do real já atingiu alguns preços em janeiro, que fechou com um IPC de 0 50%. Dentre eles, Heron destaca o frango, que subiu 2,02%; a laranja, com alta de 8,68%; a carne bovina, 2,98%; a maçã, 5 59%; o pão francês, 0,81% e o café, 1,73%.
"No mês passado, não se notou um movimento abrupto e generalizado de remarcação de preços", diz o coordenador do IPC. O repasse, argumenta, está ocorrendo de maneira suave e gradual, "em ondas". Isso reflete, de acordo com Heron, o fato de a economia estar desaquecida e desindexada. "Cada setor está reajustando preço na medida das possibilidades."
Vilão - Em janeiro, o vilão da inflação foi o transporte, que subiu 2,51%, impulsionado pela alta nas passagens de ônibus, que nada tem a ver com o câmbio, ressalta. Ele observa que, descontando o impacto do aumento do ônibus, de 0,30 ponto percentual, a inflação de janeiro teria ficado em 0,20%, não em 0,50%. A gasolina subiu 1,84% no mês passado, mas ainda não está refletindo o último aumento do combustível.
Se os postos de combustíveis reajustarem os preços em 4%, o efeito no IPC em 30 dias será de 0,12 ponto porcentual, calcula Heron. Já se o aumento for de 6%, o impacto no índice será maior
de 0,18 ponto porcentual, com reflexos no IPC a partir deste mês.
Na análise do economista, como os postos têm estoques e a concorrência está acirrada, cada estabelecimento vai dosar os reajustes. "Nem todos os postos vão aumentar preços e os reajustes serão distribuídos ao longo do mês."
Depois dos transportes, a segunda maior alta de janeiro foi registrada na educação, que subiu 1,27%, ante 4,2% em igual período de 1998. As matrículas e mensalidades escolares ficaram 1,66% mais caras.
O consumidor também teve de desembolsar 0,79% a mais nos gastos com alimentação, menos do que em janeiro do ano passado, quando os preços desse grupo subiram 1,01%. Os alimentos industrializados, mais sujeitos a reajustes de preços, recuaram 0,26% no mês passado.
As despesas com habitação cresceram em janeiro 0,18%, puxadas especialmente pelos aumentos dos artigos de cama, mesa e banho (1,41%), equipamentos (0,75%), aparelhos de imagem e som (1,67%)
que levam componentes importados e sofrem os impactos das mudanças no câmbio.
Apesar de não sofre o reflexo da desvalorização da moeda, a despesa pessoal encareceu 0,23% no mês passado, impulsionada pela loteria (1,97%). Os preços dos serviços de saúde ficaram praticamente estáveis (0,04%), mesmo com o aumento dos remédios (0,24%). Vestuário - O único grupo de preços que continuou em queda no mês passado foi dos artigos de vestuário, que ficaram 2 26% mais baratos no período. Em janeiro do ano passado, esse grupo recuou 2,03%. "As liquidações de verão evitaram que o índice de janeiro fosse ainda maior", diz Heron, prevendo que essa tendência deverá continuar até março, por causa da sazonalidade dos produtos e do fato de o consumidor estar com o orçamento apertado e com menos disponibilidade para gastar com artigos de vestuário.
Os efeitos da safra agrícola e das liquidações de vestuário não deverão, diz Heron, conter a tendência de alta do IPC, que deverá ficar em 0,7% em fevereiro. Neste mês, o efeito da desvalorização cambial no índice será maior porque terá atingido um conjunto mais amplo de produtos. Além disso, o índice será impulsionado pelo aumento dos combustíveis e resquício da alta das passagens de ônibus.
Nos próximos meses, a alta do IPC será maior ainda. Somado ao efeito do câmbio, em março e abril entra a nova coleção de artigos de vestuário.
Ano - Por conta da desvalorização cambial, Heron prevê que os preços dos produtos comercializáveis que sofrem influência das cotações internacionais e podem ser importados, vão aumentar entre 10% e 12%.
Essa alta será contrabalançada pela estabilidade dos demais itens, como os serviços, afetados pelo desemprego elevado e a renda contida - inclui gastos com educação e despesas pessoais, entre outros.


