Pressão contra papéis argentinos reflete rumores infundados Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 20 (AE) - A pressão contra os papéis da dívida da Argentina, que deprimiu as bolsas e os bônus dos mercados emergentes ontem, reflete uma combinação de rumores infundados sobre a desvalorização do peso com problemas econômicos (recessão, desemprego, aumento do déficit fiscal) de difícil tratamento num ano eleitoral, mas não deverá degenerar em fuga maciça de investidores do país ou ter maior impacto no Brasil, disseram hoje vários analistas. Fontes do mercado notaram que a pressão baixista foi alimentada por vendas feitas por operadores e não por investidores de longo prazo.
Num ambiente de nervosismo criado pelos boatos de que Buenos Aires abandonaria seu sistema de cambial de conversibilidade com o dólar, vários bancos de investimentos recomendaram aos clientes manter papéis argentinos em suas carteiras de investimentos, ainda que alguns tenham aconselhado uma pequena redução do risco em relação a outros países. "A reação (do mercado) é totalmente exagerada", disse David Sekiguchi, analista da J.P. Morgan Securities, um dos bancos que recomendou contra a venda de papéis argentinos.. "A Argentina têm problema reais, mas eles tem pouco a ver com o abandonar o sistema de paridade com o dólar, particularmente no futuro imediato".
"A convertibilidade não é a questão", concordou Rafael de la Fuente, economista do Paribas. "A Argentina não tem uma economia endividada e pode, portanto, defender o atual regime cambial. Mas eles (os argentinos) precisam consertar os fundamentos - (...) avançar rápido na reforma das leis trabalhistas, (...) ter um setor público eficiente e em boa forma e tornar o déficit fiscal mais administrável, gerando um saldo primário consistente com a dívida que tem a pagar".
Carl Ross, analista do banco de investimentos Bear Stearns, notou que, com todos os problemas do momento a Argentina tem uma economia em melhor estado do que a do Brasil e isso está refletido no preço relativo de seus papéis no mercado secundário. Enquanto os papéis da dívida brasileira que vencem em 2027 eram vendidos ontem a 75 centavos por dólar de valor de face, havia comprador a 80,5 para os títulos argentinos com o mesmo prazo de mesma maturação.
"O que estamos vendo é a vingança brasileira", ironizou Arturo Porzecanski, economista do ING Barings, referindo-se às pressões contra a Argentina. Ele notou que, da mesma maneira que a crise do real, no início do ano, foi alimentada por declarações de analistas argentinos com ações de operadores em Wall Street, a turbulência em relação à Argentina tem sido estimulada, em parte, por operadores do mercado e analistas brasileiros que tem falado nos últimos dias sobre a inevitabilidade de país abandonar seu atual regime cambial em favor da livre flutuação que o Brasil adotou em janeiro.
Declarações em favor da flutuação do peso pelo ex-ministro das Finanças, Domingo Cavallo, o homem que introduziu o sistema de conversibilidade com o dólar na Argentina - negadas hoje pelo próprio -, certamente ajudaram a agitar as águas. Os motivos de Cavallo não estão claros para os analistas, não faltando aquele que vêm na sua defesa da flutuação uma estratégia maquiavélica para forçar o governo Menem à ação na área fiscal para preservar a conversibilidade. A propósito, os secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Robert Rubin, e o presidente do Federal Reserve Board, Alan Greenspan, enfatizaram hoje, em depoimento no Congresso, que um regime cambial como o da Argentina, ou mesmo a dolarização, que seria o passo seguinte, não devem ser vistos como substitutos da disciplina fiscal.
Porzecanski, que não vê maior gravidade na atual crise argentina, lembrou que, além das declarações de Cavallo, da recessão, do desemprego e da alta do déficit fiscal, há calotes por trás dos rumores que pressionam os bônus e as ações na Argentina. Na semana passada, as empresas Piedras de Aguila e a Comercial del Plata deixaram de pagar obrigações no vencimento. Na última segunda-feira, duas outras companhias, a Supercanal e Guemes, tornaram-se também inadimplentes em débitos em eurobônus. Não havia ontem informações sobre os montantes desses débitos.
As dificuldades da Rússia de honrar no prazo alguns vencimentos de dívida já renegociada eram esperadas e não pesaram de forma significativa nos cálculos do mercado, que foi dominado pela situação na Argentina, disseram executivos financeiros.





