Curitiba- ''Comecei a beber aos 12 anos. Pouco depois, passei a usar maconha também. Mais tarde, foi a vez do crack. O álcool e as drogas destruíram o convívio com a minha família. Depois que comecei a usar, um irmão meu também passou a utilizar. É triste, mas as drogas viraram rotina na minha casa''. O desabafo é de Marcelo Siqueira, 25 anos, detido na Prisão Provisória de Curitiba (PPC). Ex-consumidor compulsivo de bebidas alcoólicas e drogas, ele impede a volta ao vício há mais de três anos.
Ontem, 23 presos da PPC receberam fichas e certificados pelo esforço de se manterem longe do álcool e/ou das drogas. Alguns deles foram parabenizados por atingirem a marca de um ano de sobriedade - outros já estão há dois ou três anos longe do vício. Siqueira foi um dos primeiros presos a frequentar os grupos de dependência química e Alcoólicos Anônimos (AA) da PPC. As tentativas anteriores de se ''limpar'' haviam sido inúteis.
''Fui preso outras vezes. Eu tentava parar de beber e de usar drogas, conseguia, mas aí era só ser colocado em liberdade que eu voltava ao vício'', lembrou Siqueira. Hoje, a força de vontade dele é exemplo para os presos que entraram depois nos grupos: ontem, durante a cerimônia, vários detentos pediram para que Siqueira lhes entregasse a ficha e o certificado pelo tempo que viveram sem álcool e sem drogas.
A pedagoga Lilian Zeghbi Cochenski, responsável pelos grupos de dependência química e AA da PPC, relatou que 75 dos pouco mais de 900 presos da PPC participam das reuniões. ''Este número poderia ser maior, mas só participa quem quer'', afirmou ela.
Atualmente, segundo informações do Departamento Penitenciário do Paraná (Depen), todos os presídios do Estado possuem programas de combate ao vício em álcool e em drogas. Terapias alternativas, como chás e florais, já são utilizadas na PPC, na Colônia Penal Agrícola e na Penitenciária Estadual de Ponta Grossa.
O processo de recuperação nem sempre é sem tropeços - nos presídios paranaenses, já foram registrados casos de detentos que, desesperados, extraíram álcool de cascas de frutas cítricas (como limão) através de fermentação. Outros chegaram a consumir álcool de cozinha. A reabilitação é lenta e o orgulho proporcionado pelos vários meses longe do vício não dá brecha para ilusões.
''Sei que vou ser um dependente químico para sempre. Não sei se vou usar alguma droga amanhã ou depois. O importante é que eu não vou me drogar e não vou beber hoje. Eu tenho que pensar em um dia de cada vez'', comentou o preso Luciano da Silva, 37 anos, que não consome bebida alcoólica nem drogas desde 2003.

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