Pelo menos duas rebeliões e fugas de 12 presos ocorreram ontem à tarde em cadeias do interior de Mato Grosso do Sul após a deflagração da greve da Polícia Militar no Estado. Em Jardim, a 260 quilômetros de Campo Grande, soldados do Exército assumiram a segurança da cadeia local no final da tarde de ontem, após a fuga de seis presos por volta das 14 horas.
Os detentos aproveitaram a adesão à greve dos dois PMs que faziam a guarda externa da cadeia, que registrava ontem 21 detentos. Apenas uma policial civil tomava conta do local no momento da fuga.
Em Naviraí, a cerca de 350 quilômetros da capital, 58 presos se rebelaram logo depois que os três policiais militares que faziam a guarda externa do presídio abandonaram seus postos, aderindo à paralisação. Os presos serraram grades das celas e tomaram controle da cadeia. No momento do motim, apenas um patrulheiro-mirim ‘‘guardava’’ a cadeia. A Polícia Civil conseguiu evitar uma fuga em massa.
Na cadeia de Eldorado, cone sul do Estado, 18 presos se rebelaram quando souberam que não haveria banho de sol, porque os dois PMs do local haviam entrado em greve. O policial civil Israel de Amorim, 75, que estava sozinho guarnecendo a cadeia, disse que os presos ‘‘quebraram tudo’’. Dos seis fugitivos, quatro foram recapturados.
O secretário de governo do Estado, Plínio Rocha, informou ontem que o Exército a partir de hoje assume a guarda externa dos seis maiores presídios do Estado. Um acordo com o comando de greve possibilitou que os PMs mantivessem a vigilância nos presídios por mais 24 horas, até a manhã de hoje.
O soldado da Polícia Militar em Mato Grosso do Sul Valdinei Martins Leite, 36, vende picolés há mais de um ano para sustentar mulher e cinco filhos. Leite, que está lotado na Companhia de Trânsito e ganha líquido R$ 260 mensais, disse que a greve deflagrada ontem ‘‘é uma reação contra a fome’’. Leite tem o 2º grau completo e entrou na polícia há 15 anos quando, segundo ele, recebia o equivalente a cerca de sete salários mínimos. De lá para cá, perdeu o poder aquisitivo e sua mulher, Cícera, ganhou cinco filhos, o mais velho com 14 anos e o mais novo com 4. Cícera é empregada doméstica e o filho Paulo aos 14 já é auxiliar mecânico. O soldado Leite já foi pintor e pedreiro nas horas de folga da PM. Como vendedor de picolés, ganha em média R$ 150 mensais, correspondentes à comissão de 50% pela venda do produto.
Ontem, o comando de greve decidiu que os PMs, no período de paralisação, devem também abandonar os ‘‘bicos’’.
Pernambuco - Os oficiais da Polícia Militar de Pernambuco decidiram ontem aderir à greve dos policiais da corporação, deflagrada quarta-feira e até então restrita a seus subordinados. A decisão foi anunciada às 15 horas pelo capitão Luis Aureliano, membro da comissão diretora da Associação dos Oficiais, Subtenentes e Sargentos da PM.
Segundo ele, a adesão ocorreu em função da ‘‘total ausência’’ do Estado no processo de negociação salarial da categoria. ‘‘A culpa é do governo’’, declarou. O capitão disse que, se o impasse persistir, ‘‘a responsabilidade pelo que poderá acontecer será exclusiva do governo estadual’’. ‘‘Ainda temos o controle sobre a tropa, mas todo controle tem limite’’, afirmou. Com a adesão dos oficiais, 22 unidades policiais militares da região metropolitana de Recife e seis do interior do Estado ficaram sem comando, segundo avaliação da associação da categoria.

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