Em Diadema, na Grande São Paulo, diante de uma câmera, um jovem é espancado e torturado por vários homens. Essa descrição, válida para o caso da Favela Naval, em março do ano passado, serve para o que ocorreu ontem na Delegacia Central de Diadema, quando três presos foram mortos, um deles com registro da televisão, pelos colegas. Dois foram arrastados até o centro do pátio da cadeia e, mesmo mortos, receberam mais chutes dos líderes dos rebeldes.
As cenas de selvageria duraram da 1 hora até as 6 horas, quando a juíza Cláudia Maria Carbonari de Faria a mesma que condenou quatro dos dez policiais militares que participaram do bloqueio na favela fez um acordo com os presos. O saldo do protesto contra a superlotação foi de 23 homens a menos na delegacia: pelo acordo, 20 deles foram transferidos. A cadeia, com capacidade para 60 detentos, ficou com 187 dos 210 presos que lotavam suas dez celas.
A rebelião começou com uma tentativa de fuga. Os presos exigiram a transferência de um deles, que estaria passando mal, para o pronto-socorro. O carcereiro Edward Belo Ramos, de 47 anos, acabou tornando-se refém pela quarta vez em sua vida. ‘‘Estava todo mundo louco’’, contaria depois, ao anunciar que quer fazer um tratamento psicológico e deixar a profissão. ‘‘Entro lá sozinho, aí acontece o que aconteceu’’.
Armados com facas e estiletes, os 40 presos rebeldes, com os rostos cobertos, entraram na cela 3, onde estavam os colegas jurados de morte, e os tomaram como reféns. O primeiro a morrer foi Pedro Luís da Silva, de 31 anos. ‘‘É a prova que não estamos para brincadeira’’, justificaram-se. Às 3 horas, foi assassinado Anderson Renato Santos, de 20 anos. Os dois eram tidos como justiceiros.
Duas presenças foram exigidas: a da imprensa e a da juíza. Enquanto Cláudia discutia o problema com o delegado-titular Sérgio Norcia, os assassinos executaram o terceiro preso, João Antonio Hermenegildo, de 28 anos, que também cumpria pena por homicídio. ‘‘Que o Senhor cuide de minha alma’’, gritava, enquanto era esfaqueado. Outros dois presos ficaram feridos e foram encaminhados ao Pronto-Socorro de Diadema. Eles teriam se recusado a participar da rebelião.
Segundo o delegado Pedro Liberal, parte da cadeia foi destruída. Ele disse que os crimes cometidos pelos rebeldes serão apurados. Um dos suspeitos de liderar a rebelião é Fábio Rodrigues Silva, que há 15 dias teria matado outro colega, após tê-lo obrigado a comer a própria orelha.
Fuga Um grupo de pelo menos seis homens armados com metralhadoras, fuzis AR-15 e pistolas automáticas resgatou ontem de madrugada 115 dos 179 presos que estavam na Cadeia Pública do 4º Distrito Policial de Campinas (99 km de São Paulo). O 4º DP tem capacidade para 24 detentos.
Entre os presos resgatados estava Antônio Pádua Vargas, 43 anos, condenado a 200 anos de prisão. Vargas participou de quadrilhas como a do assaltante Luís Carlos do Vale e do ex-cirurgião plástico Hosmany Ramos, ambos considerados perigosos.
Dos 115 presos que foram resgatados ontem, 44 haviam sido recapturados até as 17 horas. De acordo com a Polícia Civil, a fuga de ontem foi a maior já registrada em Campinas nos últimos três anos.

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