Londrina - Dois presos do sistema semiaberto de Londrina vivenciaram um dia diferente. Eles tiveram ontem o primeiro dia de aula na faculdade e em breve poderão fazer parte de um seleto grupo da população brasileira (7,9%, segundo o último Censo do IBGE): os que têm curso superior.
''É a realização de um sonho'', descreveu Ricardo (nomes usados na reportagem são fictícios), que está há quase uma década atrás das grades, condenado a 39 anos de prisão por assaltos contra transportadoras de cargas. No sistema prisional fez amizades, fortaleceu laços com grupos criminosos e, depois de algum tempo, percebeu que esse não era o caminho não era o ideal.
''Peguei o ritmo da penitenciária: pensar no crime e se fortalecer nele. Mas nesse período muita coisa foi mudando, perdi meus parentes e até minha filha se afastou de mim. Fiquei três anos sem vê-la. Percebi que não tinha sentido insistir nessa vida'', afirmou.
O ''insight'' ocorreu há quatro anos depois de uma conversa com supervisores. ''As oportunidades foram surgindo. Comecei a trabalhar dentro da penitenciária numa empresa do setor de calçados. Fiquei quatro anos empregado e percebi que trabalhar é digno. Depois passei a trabalhar minha parte espiritual. Como já tinha o segundo grau completo passei a dedicar mais tempo aos estudos'', comentou.
Ricardo foi um dos cem internos a prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) dentro da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL II), em dezembro do ano passado. Mas apenas dois conseguiram passar no vestibular da Faculdade Norte Paranaense (Uninorte).
''Me sinto orgulhoso e honrado. Saio daqui não como cheguei, mas com grandeza, com algo concreto e uma perspectiva de vida. Terei a oportunidade de buscar serviços e não voltar ao mundo do crime'', definiu Ricardo, que vai cursar Administração de Empresas.
Condenado a mais de quatro anos de prisão por tráfico de drogas, Róbson passou em Direito. Assim como Ricardo, ele conseguiu bolsa de estudos integral. Eles são os primeiros alunos/detentos em 11 anos de fundação da Uninorte. ''É difícil quem abra as portas nesse processo de ressocialização. A faculdade abre as portas para quem tem, dentre os seus anseios, o objetivo de alcançar um novo rumo na vida, em especial no aspecto profissional, oportunizando um ensino que vem atender as demandas da sociedade'', afirmou o diretor acadêmico Alexandre Sturion de Paula.
A Vara de Execuções Penais (VEP) tem garantido o direito de prisão domiciliar para quem trabalha ou cursa o ensino superior em Londrina. Os processos de Ricardo e Róbson estão em trâmite. Enquanto o benefício não é oferecido, eles passarão os dias no semiaberto e as noites na faculdade, com retorno obrigatório às 23 horas.
''A evasão é considerada falta grave e o preso passa a ser considerado foragido da Justiça. Ele será autuado e terá de cumprir nova pena'', explicou o diretor do Centro de Reintegração Social de Londrina (Creslon), Reginaldo Peixoto.

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