Polícia deteve ontem dois suspeitos de assassinar Dorcelina Folador; crime revoltou população da cidade e sete mil acompanharam o enterro
Fotos: Otávio Dias de Oliveira/Folha ImagemComoçãoBombeiros colocam em caminhão caixão com o corpo de Dorcelina: multidão acompanhou cortejoGovernador Zeca do PT chora durante celebração; a filha de Dorcelina, Jéssica, de 7 anos, beija o caixão
Agências Estado
e Folha
De Mundo Novo
A polícia civil de Mato Grosso do Sul deteve, para averiguações, dois suspeitos de ter participado do assassinato da prefeita de Mundo Novo, Dorcelina de Oliveira Folador (PT), morta com seis oito tiros de pistola calibre 380, sábado à noite, quando estava em sua casa com a família. A informação foi prestada pelo delegado regional de polícia de Naviraí, Marcos dos Santos, que assumiu as investigações por determinação do governador José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT.
O delegado não divulgou os nomes dos suspeitos. Disse apenas que os dois suspeitos estão sendo acareados, principalmente sobre o que estavam fazendo no momento do atentado. A polícia, segundo ele, trabalha com a hipótese de que o homicídio tenha tido motivação política. Desde que assumiu o cargo, a prefeita vinha recebendo ameaças de morte. Dois inquéritos foram instaurados para apurar algumas dessas ameaças, mas até agora nada foi descoberto.
O assassinato da prefeita revoltou os moradores de Mundo Novo, município de 17 mil habitantes, localizado no extremo sul de Mato Grosso do Sul, 12 quilômetros distante da divisa com o Paraguai e 18 do Estado do Paraná. A Polícia Militar estima que sete mil pessoas acompanharam o sepultamento, depois de uma celebração religiosa que durou cerca de duas horas, no ginásio de esportes municipal. Muitos manifestantes atribuíram o homicídio a ação da ‘‘máfia da fronteira’’, uma referência aos crimes de morte registrados na região.
A prefeita vinha fazendo denúncias em entrevistas aos jornais e emissoras de televisão do Estado, sobre a atuação de quadrilhas de traficantes de drogas na região. Ela também era uma das principais incentivadoras das ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em cuja militância chegou a atuar, antes de ser eleita, inclusive participando de invasões de fazendas. O governador Zeca do PT e o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) percorreram a pé os quatro quilômetros por onde o caixão, colocado sobre uma viatura do corpo de bombeiros e coberto pelas bandeiras do Brasil, da CUT, Movimento dos Sem Terra (MST) e do PT, passou antes de chegar ao cemitério local. O governador chorou muito e disse que não medirá esforços para identificar os responsáveis.
Ontem mesmo ele pretendia designar um delegado da cúpula da Polícia Civil estadual para ajudar o delegado regional de Naviraí nas investigações.
Segundo Zeca do PT, o assassinato de Dorcelina deve estar ligado a sua atuação política, contrária aos grupos políticos que sempre dominaram a cidade. Mas ele informou que as suspeitas não se restringem aos limites de Mundo Novo, pois, conforme disse, a atuação da prefeita ultrapassava o território regional.
A prefeita, uma professora de ensino fundamental, de 36 anos, casada com o presidente local do PT , Cesar Folador, era tida como administradora exemplar pelos que a apoiavam. Em vários depoimentos, durante o velório, os oradores destacaram o fato de ela ter assumido o cargo com quatro meses de salário atrasados e a prefeitura em sérias dificuldades financeiras.
Aplicando uma política austera, ela não só conseguiu equilibrar as finanças, mas deixou um saldo positivo de R$ 1,1 milhão em caixa. Esses recursos somente seriam liberados com autorização do conselho do Orçamento Participativo, que implantou no município. Segundo o secretário da administração da prefeitura, Indalécio Vanderlei Franco, recentes pesquisas de opinião indicavam que Dorcelina tinha mais de 80% de apoio da população, o que a classificava como ‘‘imbatível’’ para concorrer a reeleição.
No velório, o principal dirigente do MST em Mato Grosso do Sul, Egídio Brunetto, protestou contra a posse do vice-prefeito de Mundo Novo, Kleber Corrêa de Souza (PMDB), anunciada para quarta-feira (3), afirmando tratar-se ‘‘de um ato legal, mas imoral’’. O líder dos sem-terra chegou a oferecer apoio da militância do MST para a população da cidade, caso ela decida impedir a posse do vice. ‘‘Temos que ir para as ruas e dizer se queremos que ele assuma ou não’’, disse.
A posição do dirigente do MST não foi apoiada por Zeca do PT. ‘‘Ele está errado, pois trata-se de uma transição constitucional que estamos dispostos a garantir’’, afirmou. Segundo o governador, a única forma de seu partido recuperar o controle da prefeitura é vencer as próximas eleições municipais. Também o senador Eduardo Suplicy, pregou o cumprimento da lei na posse do vice-prefeito.
O vice-prefeito tem 31 anos, é solteiro, advogado e foi eleito pelo PMN (Partido da Mobilização Nacional), em coligação com o PT. Ele esteve no velório domingo e ontem não acompanhou o sepultamento, segundo disse, por estar mantendo reuniões políticas voltadas para sua administração. Ele informou que se desentendeu politicamente com a prefeita Dorcelina e que um mês após a posse afastou-se da administração e passou para o PMDB, partido que sempre dominou a política de Mundo Novo.
Kleber Corrêa garantiu estar disposto a assumir o cargo, embora tenha receio de que também possa sofrer atentados. Para governar anunciou que pretende dialogar com a assessoria da ex-prefeita e ‘‘na medida do possível’’, aproveitar alguns nomes ligados ao PT.
O presidente do honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que a dedicação de Dorcelina ‘‘era algo invejável, ela tinha um sonho e estava realizando esse sonho, era uma pessoa solidária com gente de todos os setores da sociedade. Segundo Lula, a história de Mundo Novo, que começou com um assentamento feito pelo Incra em 1966, seria ‘‘uma antes e outra depois da passagem de Dorcelina pela prefeitura.

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