Curitiba- Os 850 presos da Prisão Provisória de Curitiba, no bairro Ahú, tiveram uma manhã diferente ontem. De suas celas, puderam ver a apresentação ou apenas ouvir, no caso da maioria, a obra do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), ''Jesus, Alegria dos Homens'', e outras três músicas apresentadas pela Camerata Antíqua de Curitiba em pleno pátio da prisão. Em seguida, um coral composto por internos do Ahú tomou conta do lugar, apresentando algumas músicas ensaiadas desde o início do ano pelo grupo.
A manifestação cultural foi a forma encontrada pela direção do presídio para apresentar à Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania, Aldo Parzianello, o ''Projeto Bem Viver'', programa implementado na unidade há seis meses. Com o nome sugestivo de ''Voz da Liberdade'', o coral é apenas uma das atividades previstas no projeto. Ao todo, estão sendo feitas em torno de dez oficinas, entre aulas de pintura, música instrumental, mosaico, desenho, cestaria, entre outras.
''Para os internos, essa apresentação foi importantíssima. Eles mesmos que fizeram suas vestimentas aqui na unidade'', disse o diretor da prisão, Lauro Luiz Cesar Valeixo, contando que um dos objetivos do projeto, de conseguir a sociabilização dos presos, já está sendo alcançado. ''Dos internos que participaram de oficina e tinham problemas para conviver com os demais, 80% já têm hoje um bom relacionamento com os outros'', estimou.
De acordo com o professor Orlando Gomes de Castro, um dos responsáveis pelo projeto, a idéia é fazer com que todos os presos participem de todas as oficinas ofertadas. Até agora, cerca de 40% dos 850 detentos participaram de alguma atividade. Outro objetivo é formar multiplicadores, de forma que, com o tempo, os próprios presos assumam a função de ensinar, como já acontece hoje nas oficinas de pintura e cestaria.
''É um programa grandioso, porque dá capacidade para que a pessoa resgate valores que ela perdeu, como a auto-estima, o que se torna muito difícil dentro nesse espaço'', afirmou José do Carmo Silveira Junior, ao mesmo tempo em que mostrava orgulhoso os quadros que pintou. Silveira Junior, de 49 anos, deve sair da prisão no próximo mês, depois de cumprir seis anos de detenção, por estelionato e falsificação de documentos. ''Quero voltar à minha profisão de maestro e ter a pintura como uma alternativa de coibir o estresse do dia a dia'', disse.

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