Malu Gaspar
Agência Folha
O advogado do grupo de sequestradores do empresário Abílio Diniz, Iberê Bandeira de Mello, disse ontem em São Paulo que não aceita a proposta da Justiça de estudar a possibilidade de concessão do direito ao regime semi-aberto aos presos. Assim, eles deixariam de cumprir as penas de 26 a 28 anos de prisão em celas fechadas, podendo sair às tardes das prisões para trabalhar e voltar às noites para dormir nas celas.
A proposta foi feita na última segunda-feira pelo juiz-titular da Vara de Execuções Criminais, Otávio Augusto Machado de Barros Filho, aos sequestradores. Ele visitou o grupo na prisão. Barros Filho disse estar disposto a reexaminar os processos porque, em tese, haveria a possibilidade de o direito ser concedido. O juiz acredita que a greve, que entra hoje no 14º dia, esteja próxima do fim. A mediação do arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns estaria sendo importante para convencer os presos a suspender a greve.
Mas o advogado Bandeira de Mello disse que o fato de o juiz estar disposto a estudar os processos não significa que esteja havendo uma negociação em torno disso. ‘‘O único funcionário público que pode resolver o problema dos presos de forma imediata é o presidente Fernando Henrique, que pode assinar a expulsão dos meus clientes do País.’’
Bandeira de Mello disse que é difícil que a proposta seja aceita porque, diversas vezes, foram feitas promessas de revisão dos processos, mas até agora nada foi feito. Há dois anos, a sequestradora chilena Maria Emília Marchi recebeu o direito ao regime semi-aberto da Vara das Execuções Criminais, mas a decisão foi revogada pelo TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).
Na época, a sequestradora havia conseguido emprego no Consulado do Chile em São Paulo. O TJ-SP alegou que, mesmo assim, ela não poderia obter esse direito porque nada mais a prendia ao Brasil, como uma família e propriedades.
Se não acabar nesta semana, a greve de fome dos sequestradores poderá ser fatal. ‘‘Se em 4 ou 5 dias a situação não se resolver e eles continuarem se negando a tomar soro, temo que o estado de saúde deles piore a ponto de ficar irreversível, diz o médico Haley Nunes, da Penitenciária do Estado, que examina os presos diariamente.
RiscoAmanhã, eles entram na terceira semana ingerindo apenas água. Os médicos ouvidos pela reportagem dizem que, a partir da terceira semana sem comer, a pessoa pode ter anemia e se expor a um risco maior de contrair infecção. O maior temor do médico Haley Nunes era que, com a falta de alimentação, o organismo começasse a consumir as células cerebrais e causasse lesões irreversíveis.
Em comunicado divulgado nesta semana, eles afirmam que não aceitarão tomar soro. Anteontem, todos disseram aos médicos que os examinam que tomarão uma atitude radical caso a medida seja adotada para tratar algum deles. O soro é necessário para diminuir a desidratação e fornecer nutrientes aos presos. Enquanto está consciente, a pessoa tem o direito de escolher se quer ou não tomar soro. Segundo o clínico-geral Abrão Cury Júnior, o tempo que se pode resistir vivo sem soro depende da resistência física do organismo.
Na sexta-feira, o argentino Humberto Paz e o chileno Sergio Urtubia foram levados ao Hospital das Clínicas. Paz é cardíaco e tem hipertensão crônica. Urtubia mostrava lentidão de raciocínio. A diretora do pronto-socorro, Sueli Morano, submeteu os dois a exames clínicos e laboratoriais e de eletrencefalografia, e constatou que os presos apresentavam uma taxa baixa de potássio.
Como eles se recusaram a tomar qualquer tipo de medicamento para repor o potássio e receber soro, Sueli decidiu dar alta aos dois à 1 hora de ontem. ‘‘Eles não apresentavam um quadro que justificasse internação no setor de emergência’’, diz a nota divulgada na manhã de ontem. No relatório, no espaço destinado à prescrição, a médica escreveu: ‘‘Alimentação.’’
O médico Paulo César Sampaio disse que nos próximos dias os outros presos também poder ir para o hospital. Daqui para frente, segundo o médico, a saúde deles tende a piorar rapidamente.

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