Rio, 20 (AE) - Às vésperas de ganhar a liberdade, o detento Hélio Moreira Bittencourt, de 32 anos, tem um sonho. Ele quer construir uma escola de informática para ensinar a carentes o que aprendeu no curso de Cidadania e Informática na Penitenciária Lemos Brito, no Complexo da Frei Caneca, no centro do Rio, onde está preso há cinco anos por tráfico de drogas. Bittencourt passou de aprendiz a instrutor do curso, que formou cem alunos desde a criação, em outubro.
"Quero oferecer àqueles que não têm condições de estudar uma profissão para que não cometam o mesmo erro que eu"
disse Bittencourt, referindo-se ao envolvimento com o crime. "Aprendi através desse curso que posso ser útil a alguém e à sociedade como cidadão honesto, não como um criminoso que ganhou a liberdade", ressaltou.
O sonho de Bittencourt nasceu da instalação da Escola de Cidadania e Informática, um curso da Organização Não-Governamental (ONG) Comitê para Democratização da Informática, que recebe apoio material e didático da Microsoft. O sucesso do investimento levou a Secretaria de Justiça do Estado a assinar esta semana um convênio que vai estender o curso a quatro presídios do Departamento do Sistema Penal (Desipe) até o fim do ano.
"O curso tem a função prática de ensinar uma habilidade
e ao mesmo tempo, o aspecto social de mostrar à sociedade que podemos colocar na rua homens qualificados para trabalhar ", frisa o diretor da Penitenciária Lemos Brito, Abelardo Pereira Filho.
O interesse de participar das aulas praticamente acabou com o analfabetismo no presídio. Segundo Filho, antes da introdução do curso, 40% dos 600 presos nunca haviam visitado uma escola; hoje, apenas 5% da massa carcerária da unidade é composta por analfabetos. "Para fazer o curso, o detento precisa ter o primeiro grau, e isso estimulou o aprendizado", explicou o subdiretor do presídio, Noberto Ferreira de Moraes.
No início do projeto, três professores do comitê prepararam os oito primeiros alunos que, hoje, são monitores. Eles ensinam numa sala com oito computadores, remanescentes do Programa Pró-Educar, que seria aplicado pelo Ministério da Justiça nos presídios, em 1995, para ensinar informática, mas que não foi adiante. São escolhidos como alunos os detentos que apresentam bom comportamento e capacitação.
Além dos presos, funcionários do Desipe também participam das aulas como alunos. Os estudantes aprendem a operar programas como Windows 95, Word e MSPaint - doados à ONG pela Microsoft. O curso leva em média três meses, e os alunos recebem um diploma expedido pela direção do Desipe e da penitenciária, após a conclusão. Em breve, o certificado será dado apenas pelo Comitê da Democratização da Informática.
"Queremos evitar que os presos com os documentos do sistema penal sofram discriminação da sociedade", afirmou um dos coordenadores do projeto no Lemos Brito, Tácito Ribeiro.
Por motivos de segurança, não é permitido que os presos tenham acesso à Internet, mas se estuda a criação de uma Intranet (rede interna) na Lemos Brito.

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