Preso acusado de causar parada respiratória em 15 crianças
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sábado, 12 de novembro de 2005
Alexandre Rodriguese Clarissa Thomé 
Rio- A Polícia Federal prendeu na manhã de ontem o técnico em enfermagem Abraão José Bueno, de 28 anos, suspeito de ter provocado parada respiratória em pelo menos 15 crianças internadas no Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os ataques ocorreram nos últimos 30 dias. Nenhuma das crianças morreu. De acordo com a direção do hospital, o próprio técnico pedia socorro médico para os pacientes depois de injetar medicamentos e constatar a parada respiratória. As vítimas têm entre 1 e 10 anos. Bueno trabalhava ainda na UTI pediátrica do hospital municipal Miguel Couto e na emergência do estadual Albert Schweitzer.
A equipe da emergência do IPPMG, setor que atende 3.300 crianças por mês, começou a desconfiar dos sucessivos episódios de parada respiratória e depressão neurológica (sonolência, torpor) que ocorriam nos plantões de Bueno. Em alguns casos, as crianças tinham conjutivite ou quadro moderado de asma - nada que justificasse parada respiratória repentina. Parte dos pacientes precisou ficar no respirador para se recuperar. Na última terça-feira, os plantonistas, alertados para as coincidências, destacaram uma médica para vigiar Bueno. Assim que ela deixou o hospital houve dois novos casos.
Uma reunião foi convocada e os funcionários concordaram em mostrar o que carregavam em suas bolsas. Com Bueno foram encontrados medicamentos que podem provocar o quadro registrado nas crianças, como fenobarbital (barbitúrico, com efeito sedativo e anticonvulsivo), midasolan (sedativo) e curare (pré-anestésico), além de seringas e agulhas. ''Ele tentou argumentar que andava com esses remédios porque costumam faltar em outros hospitais em que ele trabalha, mas isso não acontece aqui'', contou a chefe da emergência do instituto, Lúcia Araújo.
Presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil, seção Rio, o psiquiatra Fábio Barbirato alertou que as crianças que sofreram parada cardiorrespiratória podem apresentar no futuro dificuldade de aprendizagem ou distúrbios de comportamento.
Giulia dos Santos Marinho, de 5 anos, paciente com leucemia que faz tratamento há dois anos no IPPMG, é a última das vítimas de Bueno que continua internada. Há duas semanas, a menina apresentava dores e foi levada à emergência pela mãe, Jaqueline Pimenta dos Santos. ''Eu me afastei um pouco e quando voltei uma enfermeira disse que ele (Bueno) havia aplicado uma injeção na minha filha por causa de uma febre. Ainda discuti com ele, porque ela não tinha febre. Em seguida, ele disse à equipe que era melhor levá-la para outra sala porque ela teria parada respiratória. Em menos de 20 minutos ela teve mesmo. Ele ficou como se tivesse salvado a vida dela. Foi tão seguro que eu acreditei'', contou Jaqueline.
Giulia foi levada para um respirador e chegou a ficar inconsciente. A menina permaneceu em estado grave até anteontem e se recupera agora numa enfermaria do instituto. No período mais crítico, os médicos chegaram a desenganá-la.
O caso foi informado à Polícia Federal, que pediu a prisão temporária de Bueno.


