Rio de Janeiro, 06 - O presidente do Movimento União Brasil Caminhoneiro (UBC), Nélio Botelho, que há 15 dias liderou uma greve que quase parou o País, está prestes a ser surpreendido pelos próprios companheiros. O aumento de 5,5% do óleo diesel, em vigor desde hoje, provocou uma rebelião entre presidentes de sindicatos de caminhoneiros de vários Estados. Depois de amanhã, em São Paulo, eles vão se reunir para discutir os rumos das negociações entre o governo e Botelho.
A idéia é soltar uma nota pública contra o presidente da UBC. Muitos sindicalistas não escondem até a hipótese de uma nova paralisação. "Não reconhecemos no Botelho nenhuma legitimidade para falar em nome da categoria", protesta Norival de Almeida Silva, presidente do Sindicato dos Caminhoneiros de São Paulo, que tem 11 mil filiados. "Na verdade, ele quer ser mais famoso que o papa."
O presidente do sindicato do Paraná, Dilmar Cunha Bueno, vai mais longe. "Nélio aproveitou a insatisfação geral, fez uns panfletos e acabou pegando carona num movimento espontâneo de protesto contra a situação que a categoria vive hoje", reforça o sindicalista, que comanda 12 mil caminhoneiros.
Bueno e Silva estiveram na tumultuada reunião em São Paulo, no dia 28, quando o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, encontrou pela primeira vez as lideranças dos caminhoneiros. Havia cerca de 21 sindicalistas que reivindicavam para si a idéia da paralisação. O clima era de tensão, já que a greve caminhava para o terceiro dia e o País começava a sentir o efeito do desabastecimento.
No encontro, Padilha prometeu que o óleo diesel não iria subir enquanto não houvesse decisão sobre a pauta dos caminhoneiros, que inclui 11 pontos, entre os quais a revisão do Código Nacional de Trânsito, a criação de uma tabela de frete e a redução do preço dos pedágios.
No dia seguinte, Botelho voou para Brasília e acertou o fim da greve com o próprio ministro. "Ele sequer nos comunicou que iria a Brasília, negociou sozinho com o governo sem o nosso consentimento", diz Bueno.
"Por sua vez, o governo quebrou a promessa de não aumentar o diesel e, agora, fica o Botelho dizendo que essa questão não fazia parte da pauta; isso é uma mentira." O líder da UBC defende-se dizendo que tem a autorização de "20 mil caminhoneiros" que compõe a comissão organizadora da União Brasil Caminhoneiro. "Esses sindicalistas estão com medo que nosso movimento ganhe força nacionalmente, porque assim eles acabarão enfraquecidos", rebate.
Com ou sem legitimidade para negociar com o governo, Botelho não deixa de ser um líder polêmico. Longe do volante há 15 anos, ele garante que vive com cerca de R$ 3 mil por mês. O dinheiro vem do aluguel de um carreta-tanque e do salário pago pelo sindicato e pela cooperativa que também preside.
Vaidoso, o líder da UBC acha que ocupou a cena nacional "por sina".
"Não esperava isso, mas estou pronto para servir aos meus amigos caminhoneiros", ressalta. Botelho garante que não pensa em seguir carreira política, mas não esconde que tem uma "amizade pessoal" com o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, do PTB.
Apesar de ainda não revelar se foi ou não mordido pela mosca azul, o sindicalista conta que pretende transformar o UBC em uma federação nacional com amplo poder político."Queremos ter poder de influência nas próximas eleições presidenciais", sonha. Eleitor de Fernando Collor e de Fernando Henrique Cardoso, o "homem que parou o País" quer montar bancadas nas casas legislativas dos municípios, Estados e até no Congresso Nacional.
Início - Nélio Botelho surgiu na cena sindical em 1984, quando transformou-se em um dos líderes de uma paralisação nacional de caminhoneiros contra o governo José Sarney. A greve foi um fracasso, mas, através do movimento, Botelho conseguiu fundar o Sindicato dos Caminhoneiros do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Sindicam-RJ).
Nesses 15 anos, o sindicato transformou-se em feudo de Botelho
que o preside até hoje. Segundo ele, desde 1992, o Sindicam-RJ transformou-se em uma entidade nacional e hoje está representado em 14 Estados, com cerca de 20 mil filiados. Cada um deles paga R$ 17, 46 (18 Ufirs) por mês de contribuição.
Botelho, porém, ainda arranja tempo para presidir a Cooperativa Brasileira dos Trabalhadores Rodoviários Autônomos (Coobrascam), fundada por ele e mais 20 pessoas em janeiro de 1988. A cooperativa funciona no mesmo endereço do Sindicam-RJ - Rodovia Presidente Dutra, 555, em Irajá, zona norte do Rio.
Por coincidência ou não, o local também abriga a filial da Rodoviário Michelon Ltda, uma das maiores transportadoras da América Latina, com 600 caminhões-frigorífico, acusada de estar por trás da paralisação dos caminhoneiros. "Nós cedemos um galpão atrás do sindicato para a Michelon e, em troca, ela subsidia o diesel de nossos cooperativados", tenta explicar o sindicalista, que, apesar das evidências, garante que o movimento que liderou não foi um locaute.
"Nossa greve foi verdadeira e expressou a legítima insatisfação da categoria", diz. O gerente da Michelon do Rio, Jorge Célio Gomes da Silva, porém, teve papel ativo na condução da greve.
Segundo integrantes do UBC, Silva foi ao mesmo tempo segurança
secretário e agente de viagens de Botelho entre Rio, Brasília e São Paulo. "Eu conheço o Jorge, mas posso garantir que ele jamais foi meu assessor", afirma o sindicalista. Procurados pela Agência Estado, tanto o empresário quanto seu gerente no Rio não foram encontrados.

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