Brasília, 03 (AE) - Os países do Mercosul vão partir para uma ação mais coordenada a partir deste ano, com o objetivo de fortalecer as instituições do bloco e começar a ganhar novos mercados. Essas são as diretrizes sinalizadas hoje pelo presidente eleito do Uruguai, que toma posse em 1º de março, Jorge Battle, em sua primeira visita ao Brasil como presidente eleito. Ele defendeu a criação de uma secretaria técnica para dirimir os problemas comerciais entre os sócios do bloco, "para deixar os presidentes longe dessas discussões", e a adoção de uma política comercial comum para o Mercosul.
Com um discurso semelhante ao do presidente da Argentina
Fernando De La Rúa - que visitou o Brasil em dezembro -, com relação às preocupações em torno de convergências macroeconômicas do bloco comercial, o presidente do Uruguai disse que os países não deveriam se preocupar com problemas futuros, como a adoção de uma moeda comum, antes de resolver problemas como o fortalecimento das instituições do Mercosul, a consolidação da união aduaneira e regras comuns de defesa comercial. "A moeda comum é um objetivo, mas não podemos começar pelo fim, ao invés de fazermos o que tem de ser feito", disse.
Hoje Battles almoçou com o presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampréia, com quem conversou, segundo ele, sobre as várias fases pelas quais passou o Mercosul, desde a criação do bloco. A demonstração do presidente Fernando Henrique, de que também está empenhado em executar "o que tem de ser feito", como afirmou Battles, foi dada há duas semanas, quando o presidente nomeou o ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex) José Botafogo Gonçalves, que também esteve presente no almoço, para o posto de embaixador extraordinário do Mercosul. Como defendeu Battles, a missão de Botafogo é trabalhar para harmonizar regras, criar uma política comercial comum e conquistar novos mercados.
Para Battles, com instituições mais fortes o Mercosul poderá "negociar com mais inteligência" nas rodadas que serão retomadas este ano para a formação da área Livre de Comércio das Américas (Alca), com a União Européia e na Organização Mundial do Comércio. De acordo com o presidente do Uruguai, países líderes, como é o Brasil na região, "têm de ter mais responsabilidades" do que nos demais. "A Alemanha faz concessões pela ineficiência agrícola da França e o Uruguai fez concessões quando aumentou suas tarifas, que eram menores, para integrar o Mercosul, portanto é normal que o Brasil, como líder, também tenha mais direitos e responsabilidades", disse o presidente, sem citar, no entanto, quais seriam essas responsabilidades.
Segundo ele, mesmo com a crise do ano passado, depois da desvalorização do real, o Brasil continua sendo o principal parceiro comercial do Uruguai. No ano passado, o Brasil exportou US$ 670 milhões para o Uruguai e importou US$ 647 milhões, resultando em um superávit de US$ 23 milhões para o país vizinho. "O substantivo é que, mesmo no pior momento, depois da desvalorização do real conseguimos vender para o Brasil cerca de US$ 700 milhões", disse Battle, para quem a crise de 1999 foi o primeiro "tropeço" do Mercosul. "Se o Uruguai desvalorizar sua moeda, o Brasil nem mexe, mas se o Brasil desvaloriza, o Uruguai treme", disse. "Eu sei porque senti isso na pele", lembrou.