Presidente do STF condena ação da polícia em Buritis
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de março de 2002
Rodrigo Morais Agência Estado 
Rio - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, condenou ontem a ação da Polícia Federal (PF) na desocupação da fazenda Córrego da Ponte, em Buritis (MG), propriedade da família do presidente Fernando Henrique Cardoso, invadida por militantes do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) na madrugada de sábado. Para o magistrado, a PF cometeu violência descabida e injustificável ao algemar 16 sem-terra. Em fevereiro, Mello criticou a PF pela mesma razão: o uso de algemas na prisão do ex-senador Jader Barbalho (PMDB-PA). Para ele, os militantes do MST passaram por uma humilhação horrível. O grupo de 200 sem-terra passou quase 24 horas na fazenda.
Fiquei perplexo. Colocar-se aquelas pessoas com o rosto virado para o chão, ao meu ver, só teve um objetivo: a humilhação. Só faço uma pergunta. Para quê esse procedimento, com tantos policiais que podiam muito bem acompanhar os sem-terra para a viatura que os transportaria à Brasília?, questionou o juiz. O governo mobilizou um grande aparato para a desocupação da fazenda: 300 homens do Exército, 70 agentes da Polícia Federal, aviões da Força Aérea Brasileira, helicópteros, 20 caminhões e quatro ambulâncias, além de outros carros menores.
No episódio do Jader (Barbalho), eu veiculei: se fazem isso com um ex-governador, ex-ministro de Estado, ex-presidentedo Senado, o que farão com o cidadão comum? Está aí, afirmou o magistrado, que ontem proferiu palestra na UniverCidade, no Rio. Penso que a PF , não chegou à violência física, de agressão corporal. Mas chegaram a uma humilhação terrível. Há como se coibir isso, inclusive com as repercussões penais próprias, acrescentou.
Mello discordou das afirmações do ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, que classificou a invasão como ato terrorista.
Não vejo como ato de terrorismo, mas foi um ato falho. Pode-se imaginar a invasão da fazenda como um ato simbólico, para chamar atenção para o movimento, mas jamais a violência perpetrada à privacidade daqueles que ficam costumeiramente na casa. Pouco importa se for o presidente da República ou um cidadão comum.


