Buenos Aires, 05 (AE) - O presidente do Banco Central da Argentina, Pedro Pou, está sendo acusado de anti-semitismo na Justiça federal pelo banqueiro Rubén Beraja, líder da influente comunidade judaica argentina. Beraja, ex-presidente do Banco Mayo, acusa Pou de ter ajudado nas falências dos bancos da comunidade, que foram os grandes escândalos financeiros do fim do ano passado.
O juiz federal Gabriel Cavallo é o encarregado do caso. Ele também está investigando a associação ilícita e o não-cumprimento de deveres públicos por parte de membros da diretoria do BC argentino. No entanto, Pou negou-se a prestar depoimento. A lei argentina torna mais grave uma pena por outros delitos quando foram cometidos motivados por discriminação racial ou religiosa.
A comunidade judaica argentina possui 600 mil integrantes e é a segunda maior do continente americano, após a dos Estados Unidos. Na Argentina, meia dúzia de bancos era controlada pela comunidade, entre eles, o Mayo, de propriedade de Beraja, que fechou no fim do ano passado.
No ano passado uma sequência de falências em alguns bancos da comunidade abalou a confiança nos restantes, deixando centenas de milhares de pessoas com contas bloqueadas. Na época, o Banco Central foi acusado de ter agido despreocupadamente com os bancos. "Bancos étnicos" era a frase com a qual o presidente do BC se referia aos bancos da comunidade judaica. Beraja, que até o fim do ano passado foi o presidente da Delegação das Associações Israelitas da Argentina (a DAIA - o braço político da comunidade no país) sustenta que Pou veiculou informações tendenciosas que provocaram corridas contra os bancos da comunidade judaica.
Além disso, Beraja argumenta que Pou permitiu que o Banco Mayo absorvesse o Banco Cooperativo de La Plata. Segundo o BC, o banco possuía um patrimônio de US$ 10 milhões. Mas, pouco depois
técnicos do Mayo descobriram que era falso: o banco devia US$ 30 milhões.
O ministro da Economia, Roque Fernández, tranquilizou Beraja, afirmando que a passagem do Banco Cooperativo de La Plata para o Mayo era urgente, e que devido a isso, posteriormente o Mayo seria compensado pelas eventuais perdas. No entanto, Pou nunca reconheceu o compromisso, o que colocou o Mayo em graves problemas. Beraja reclamou ao ministro Fernández, que lhe teria respondido "vocês sabe que o Banco Mayo é um projeto que quero bem, mas não é assim para Pou...".
Além disso, Beraja sustenta que em uma ocasião, analisando o fim do Cooperativo de La Plata, Pou teria dito que "se para fechar um banco católico não hesitei, muito menos vacilarei para fechar bancos judeus".
A situação do Mayo complicou-se mais ainda, quando a meados do ano passado, absorveu o banco Patrícios, da comunidade judaica, e que estava em delicada situação financeira. Poucas semanas depois, uma série de rumores causaram corridas contra o Mayo, que perdeu US$ 400 milhões em menos de uma semana, o equivalente a um terço do que possuía.
A acusação de Beraja é reforçada pelo deputado socialista Jorge Rivas, que alerta para o fato de que quando o Banco de la Província de Buenos Aires (o segundo maior banco estatal do país) se dispôs a encarregar-se de parte da dívida do Banco Mayo
Pou impediu a medida. Na ocasião, o presidente do BC alegou que não deixaria que o Estado argentino, que havia investido US$ 2 bilhões na privatização de bancos, permitisse agora que bancos estatais absorvessem bancos privados. Finalmente, a estrutura do Mayo foi dividida entre o Citibank, o Banco de La Nación e o Banco Galicia.
Beraja também acusa Pou de tê-lo chamado às pressas no meio das cerimônias do Yom Kippur, o dia do Perdão, que é uma das principais festividades judaicas. Beraja, na época o líder da comunidade no país, teve que deixar a cerimônia para ir até o Banco Central para uma reunião com Pou. No dia seguinte, por causa dos acontecimentos do dia anterior, o Grande Rabino quebrou a tradição, e convidou Beraja para fazer o sermão de encerramento. Nesse momento, Pou telefonou a Beraja, dizendo-lhe que deveria assinar nesse dia a transferência do Banco, para evitar maiores consequências.
Pou rechaça as acusações de Beraja, e afirmou que "são absolutamente falsas, e constituem-se em uma infâmia". Segundo Pou, o documento da acusação feita por Beraja "é uma obra-prima" de mentiras e verdades parciais entrelaçadas, "que sempre levam à interpretações de falácias".

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