Presidente da Funai diz que comemorações dos 500 fracassaram
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sábado, 22 de abril de 2000
Por Nélia Marquez 
Brasília, 23 (AE) - Um dia depois de ter anunciado o seu pedido de demissão, inconformado com a violência utilizada para reprimir a manifestação dos índios em Santa Cruz Cabrália, o presidente da Fundação Nacional do Índio, Carlos Frederico Marés
definiu como "um fracasso" as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil na Bahia. "Essas comemorações começaram com a destruição do monumento feito pelos índios e acabou com a represssão à marcha; parece que aconteceu em uma semana o mesmo que ocorreu nesses 500 anos", desabafou. "Não posso compartilhar com isso de jeito algum."
Marés voltou a Brasília na noite de sábado para fechar a sua participação na Funai. Amanhã (24) pela manhã apresenta o seu pedido de demissão ao ministro da Justiça, José Gregori. Para ele, um pedido de desculpas do presidente Fernando Henrique Cardoso pelos excessos da política baiana é completamente desnecessário. "Esse incidente deve servir para uma reflexão dele sobre como organizou o governo e para uma revisão de rumos", disse. Ele acha que seu sucessor deve prosseguir na política de revisão da demarcação das terras indígenas com ampliação da melhoria da situação ecológica das terras, orientação que tinha acertado com o então ministro da Justiça, José Carlos Dias - que o convidou para o cargo - e que tinha sido aprovada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Marés estava no meio dos índios quando a polícia baiana começou a lançar bombas. Ele culpou as declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso e do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, de que não seria permitida a presença de manifestantes em Porto Seguro, pelos excessos contra os índios. "Foi o sinal claro para a atuação da polícia", afirmou. "Foi um erro do presidente ter apoiado esse esquema de segurança."
Segundo Marés, a ação dos policiais deixou os índios surpresos. "Era a primeira vez que eles faziam uma manifestação e vinham caminhando de forma pacífica quando os policiais começaram a agredir", contou. "Eles ficaram tão assustados com a violência que correram do local e foram embora". A intenção deles, conforme Marés, era que a marcha chegasse a Porto Seguro e que uma comissão apresentasse ao presidente um documento.
O incidente de sábado foi, na sua definição, não apenas a gota, mas "a enxurrada de água", para o seu pedido de demissão. Ele admite, porém, que a partir da derrubada do monumento que vinha sendo construído pelos próprios índios em Coroa Vermelha a amadurecer a sua demissão. "Eu ainda achava que poderia ser diferente e que tudo poderia correr sem traumas".
A interlocução dos povos indígenas com o governo estava sendo feita por Marés. A partir do dia 13, dia em que o presidente Fernando Henrique recebeu uma comissão de índios com a intermediação da Funai, Carlos Marés disse que a Fundação foi excluída do planejamento sobre a segurança do movimento. "Quebrou aí a interlocução do movimento dos índios com o governo", afirmou.
Ao tomar conhecimento da intenção do policiais, Marés disse que procurou os responsáveis pela segurança tanto da Presidência da República quanto do Ministério das Relações Exteriores. Não teve sucesso em nenhuma de suas investidas. No seu entender, o ministro do esporte e Turismo, Rafael Greca, não teve responsabilidade no incidente. "Ele fez apenas a festa", afirmou ele, acrescentando, porém, que acha que o esquema de segurança armado em Porto Seguro teria o apoio de Greca. Para ele, ao invés de agredir os índios, a polícia baiana deveria ter garantido a segurança da marcha indígena.


