Rio, 20 (AE) - O presidente da Companhia Estadual de águas e Esgotos (Cedae) do Rio, Marcos Montenegro, pediu hoje demissão e abriu a mais grave crise na esquerda fluminense desde a intervenção na seção petista local para garantir a aliança com o PDT, em 1998. Ligado aos presidentes de honra, Luiz Inácio Lula da Silva, e nacional da legenda, deputado José Dirceu (SP), Montenegro, que é engenheiro, entrou em confronto com o governador pedetista Anthony Garotinho, cujo governo acusou de hesitar em relação à política de privatização.
O PT reclama do esvaziamento no governo e fala-se de reforma no secretariado. Até Lula entrou em ação para tentar evitar o desfecho ocorrido hoje.
Na segunda-feira (17), o líder petista reuniu-se com dirigentes locais da legenda, exortando-os a um acordo com Garotinho. Àquela altura, Montenegro avisara aos companheiros de partido que a carta de demissão estava pronta desde a semana passada e dera um prazo (que se esgotaria sábado) para que o PT tomasse uma posição.
Declarações de Garotinho sobre mudanças administrativas na Cedae levaram o engenheiro a formalizar hoje a renúncia. Uma comissão de negociação criada pela Executiva do PT não conversou com o governador.
"Montenegro é um engenheiro de alta respeitabilidade, inclusive internacional", disse o presidente do PT fluminense, Domício Mascarenhas. "Essa episódio vai gerar conflito."
Garotinho, porém, negou que vá fazer grandes mudanças no governo. "Não há crise com o PT, o caso da Cedae é isolado", disse. O governador confirmou estar insatisfeito com a atuação de Montenegro e disse que quer "modernizar e dinamizar" a empresa. Uma das possibilidades é o Estado vender até 49% das ações da estatal.
Na carta em que apresentaram a renúncia, Montenegro e outros três ex-diretores reclamaram de não terem sido cumpridos compromissos que teriam sido assumidos pelo governador quando foram convidados para os cargos. Segundo os demissionários, ocorreram nomeações políticas de superintendentes e gerentes da Cedae, submissão da empresa a regime de "caixa-único" do Estado, faltou apoio de Garotinho "para combater iniciativas de privatização" da empresa e inexistiu entrosamento do governador com a cúpula da companhia. Na carta, os petistas estranharam também a insatisfação de Garotinho com os problemas no conserto do emissário submarino de Ipanema, que poluiu o litoral da zona sul e expôs o governo a desgaste na imprensa, irritando o governador.
"A situação da Cedae é grave, muito grave", disse Montenegro hoje. "A situação do emissário submarino e da rede de esgoto da zona sul é apenas um exemplo." Montenegro indispôs-se com o PDT e com o governador por resistir à indicação, para cargos na empresa, de pessoas da predileção de Garotinho, do partido e também de pequenas legendas com força na Assembléia Legislativa e que, em troca, ajudariam o Executivo a ter maioria. Ele também não concordou com a possível concessão de saneamento para os municípios do Rio (Barra da Tijuca e Jacarepaguá), Campos e Niterói, que identifica com uma política de retalhar e privatizar a Cedae e o saneamento básico.
O engenheiro também brigou com o secretário de Saneamento, Alexandre Cardoso (PSB), em tese acima dele, por causa do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, com orçamento de US$ 800 milhões. Cardoso queria manter o projeto, na maior parte de água e esgoto, nos moldes atuais, mas o petista apontou falhas, como o atraso na construção da rede coletora, e queria integrá-lo à Diretoria de Expansão e Otimização da estatal, o que o tiraria da influência do socialista.

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