São Paulo, 10 (AE) - Recém-eleito presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o empresário Alencar Burti, só tem uma explicação para a estranha convivência entre a explosão do desemprego e o altíssimo nível de trabalho extra feito por quem continua empregado. "Há tempos estamos vivendo uma grande mentira que é a regulamentação do trabalho no Brasil."
Burti anda alarmado com os efeitos do desemprego sobre a qualidade de vida de quem mora em São Paulo, especialmente no item segurança. Para ele, a sociedade não vai conseguir lidar com o efeito mais perverso da desocupação nos níveis atuais, que é a destruição da organização interna de famílias e, pior, de personalidades. "O desemprego desajusta tudo, mas desajusta principalmente o ser humano", afirma. Ele vendeu uma das lojas que tinha há anos - uma joalheria -, depois de seis assaltos.
O empresário disse que a conjuntura no Brasil é de um "dinamismo singular", o que, em parte, justifica a preferência por fórmulas mais descomplicadas de distribuição do trabalho e de remuneração. Aqui, as crises chegam com agudeza impensável e a economia, muitas vezes, demonstra uma capacidade de reação também inesperada. O efeito gangorra, num cenário de relações rígidas de trabalho, repete-se há anos, fazendo com que poucos se arrisquem a adotar métodos estáveis de administração de pessoal, incluída aí a manutenção de uma jornada fixa e contratação de reforços quando necessário.
O sonho dele, diz, é que sejam abolidas as relações de trabalho cheias de regras que nada têm a ver com o dinamismo (para o bem ou para o mal) da realidade brasileira. "Gostaria que, no Brasil, houvesse um giro positivo de empregos, que as relações passassem a ser entre contratantes e contratados e não mais entre patrões e empregados", diz.
"Nos Estados Unidos, contrata-se com uma facilidade incrível e, por isso, a hora extra é pouco utilizada, mas, aqui, com essa CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) cheia de detalhes e paternalismos, é melhor pagar mais pela hora extra do que aumentar o quadro de pessoal." Burti reconhece que empresários estão fazendo o ajuste de renda dos empregados via trabalho extra, e não reajuste do salário-base. Concorda que a abertura do comércio aos domingos não criou empregos. Revela que
muitas vezes, o empresário prefere manter um funcionário informal, com a jornada esticada ao máximo, do que dois, quando o custo, pela ausência de encargos, seria o mesmo. "O raciocínio é simples", diz Burti. "O empresário sabe que é mais barato enfrentar um processo na Justiça do Trabalho do que dois." Mudar tudo o que está errado, para ele, não será possível com as regras atuais. "Isso exige coragem de sindicatos, empresários e governo para mexer de forma radical na legislação." A abertura do comércio aos domingos prometia criar muitos postos para trabalhadores registrados, informais e temporários. As estatísticas mostram que isso não aconteceu - ao contrário, o nível de emprego no comércio vem caindo sistematicamente, segundo o vice-presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e secretário de Finanças da Força Sindical, Ricardo Patah. Para ele, se a decisão resultasse de negociação com sindicatos, haveria possibilidade de vincular a novidade ao aumento do nível de emprego.
Mas não apenas os empregados do comércio e da indústria. Também os autônomos contribuíram para engordar as estatísticas sobre horas extras. Prestadores de serviços diversos, vendedores ambulantes, motoristas de taxi ou lotações e outras categorias profissionais liberais, com a queda de movimento, acabaram obrigados a esticar as jornadas de trabalho para manter o padrão de renda de antes da crise.

mockup