Rio, 27 (AE) - O presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), Alfried Pl”ger, afirmou hoje que a fusão das bolsas de valores não mudará a tendência de fechamento de capitais das empresas no Brasil e a procura de outras bolsas no Exterior. "A mera fusão, por si só, não muda nada", avisou Pl”ger. Segundo Pl”ger, o mercado financeiro brasileiro só atrairá mais as empresas com a redução do custo dos impostos e tributos e dos juros, após a votação das reformas tributária e previdenciária.
Na avaliação do presidente da Abrasca, assim como a nova legislação de proteção aos acionistas minoritários, a fusão foi anunciada precipidamente para que o presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Francisco da Costa e Silva, pudesse chamar a atenção para a gestão, antes de deixar o cargo amanhã (28), quando será substituído por José Luiz Osório. "O que fica nítido é a impressão que ele quis colocar um monumento antes da saída", afirmou Pl”ger, referindo-se às novas regras para os minoritários.
A união das bolsas foi tão apressada, segundo o presidente da Abrasca, que ele mesmo não foi à cerimônia de anúncio da medida na tarde de hoje, em Brasília, por ter recebido o convite somente às 17h30 do dia anterior. "Não fui, não podia mudar meus compromissos só porque o governo chamou", afirmou Pl”ger, depois de reunião da Abrasca com o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Gesner de Oliveira, na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Pl”ger reconheceu que a união das bolsas segue a tendência mundial e deve reduzir os gastos das empresas para manter as ações listadas nas bolsas. Mas ele lembrou que 95% das companhias abertas têm as ações negociadas somente na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) - que ficará com a negociação total dos papéis das companhias abertas.
O presidente da Abrasca previu que, no futuro, na América Latina, devem funcionar somente as Bolsas de São Paulo e do México. Mas ele alertou que há o risco de companhias brasileiras migrarem para a Bolsa da Espanha, que aceita a divulgação de balanços em reais, com auditoria feita por empresas brasileiras. "Isso é uma grande facilidade", argumentou Pl”ger. Ele lembrou que a Bolsa de Londres pretende adotar a mesma norma.
Se admitiu pelo menos que a união das bolsas é um consenso, Pl”ger foi mais crítico sobre a Instrução número 324 da CVM, que permite a acionistas minoritários que tenham o mínimo de 1% de participação no capital total convocar um conselho fiscal para vistoriar a empresa. "Isso vai totalmente contra a modernidade do capitalismo", acusou.
Ele alertou que a medida vai permitir a ação de "chantagistas" interessados em criar problemas na empresa para vender a parte ao controlador por um preço exagerado. O dirigente da Abrasca avisou que, com este receio, muitas empresas que poderiam abrir o capital abandonarão a idéia.
Ele também cobrou de Costa e Silva a falta do cumprimento da promessa, feita em outubro, de realizar dois seminários antes de baixar a legislação sobre os minoritários. "Uma instrução dessas não pode ser instituída sem consulta pública", criticou. "Liguei inclusive para agentes de minoritários, e eles disseram-me que também não foram ouvidos", acusou.
"O escopo da CVM era ouvir o mercado, mas, como ele (Costa e Silva) saiu mais rápido do que desejava, se precipitou", afirmou Pl”ger. O presidente da Abrasca avisou que a revogação desta norma vai ser o primeiro assunto que a entidade tratará com o novo presidente da CVM, José Luiz Osório.

mockup