Arapoti - A preservação e restauração da casa grande está sendo discutida entre os atuais proprietários da fazenda, o Ministério Público (MP) e os descendentes dos escravos. Assim como o acesso ao cemitério. Desde 2015, existe um inquérito civil instaurado pelo MP para apurar as condições das construções históricas. De acordo com o promotor Eduardo Henrique Germano, a partir de 2000 iniciou uma briga judicial por causa de dívidas da fazenda, que acabou sendo leiloada. O MP constatou que o então proprietário depredou as construções.
Por um período, em função da disputa judicial, o acesso à propriedade foi fechado, o que provocou a revolta da comunidade negra, que se viu impedida de visitar o cemitério. Para resolver a questão, o MP realizou uma audiência pública com a comunidade e a empresa Morro Chato Agropecuária, que comprou a área no ano passado.
Nesta audiência ficou definida a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para garantir o acesso e o prosseguimento do tombamento das construções. "O cemitério já é tombado e agora estamos em processo de avaliação, junto ao Iphan, do casarão, que está bem degradado", comenta Fábio Luiz Bernardi, contador da Morro Chato. "Também precisamos definir de onde virá o recurso para recuperação. Mas não podemos fazer nada sem antes decidir a questão do casarão."
O acesso ao cemitério está liberado. A empresa retirou a guarita que havia na entrada e só fecha a porteira durante a noite. "Quando compramos a fazenda o acesso estava fechado. Então, colocamos uma guarita e um livro de acesso para controle de quem entrava e saía. Mas o MP obrigou a liberação total, então agora está liberado", comenta Bernardi.
A Morro Chato quer que o TAC defina critérios para o acesso. "Tudo isso faz parte da história do município, mas precisamos de critérios. Temos uma responsabilidade sobre a propriedade. Se, por exemplo, entrar um caçador aqui e for flagrado pela Polícia Ambiental, somos responsabilizados. É preciso ter critérios", afirma. Uma das propostas é a criação de um corredor de acesso, mas a ideia é criticada pela comunidade. "A gente não quer um corredor", diz Pedro Carneiro dos Passos, presidente da Comunidade Quilombola do Município de Arapoti.
Bernardi comenta que direções de escolas demonstraram interesses em levar os alunos para conhecer o local. Ele não fala sobre os planos da empresa para a área, mas não descarta a possibilidade de investimentos em projetos de educação histórica. A Morro Chato comprou a Fazenda Boa Vista há um ano e meio.

POSSE DA TERRA
Para o presidente do Instituto Sorriso Negro, José Luiz Teixeira, que vem acompanhando o TAC, a Fazenda Boa Vista é um sítio arqueológico de grande importância histórica e que precisa ser estudado.
Segundo Teixeira, a comunidade negra também quer o reconhecimento da posse da terra. "Para a comunidade, ela não pode ser mexida. É da comunidade negra. Ainda será feito um levantamento do número de pessoas que teriam direito", afirma. Estima-se que seja em torno de 100 famílias, espalhadas entre Arapoti, Ventania, Castro e Jaguaraíva.
Atualmente, das 37 comunidades quilombolas certificadas no Estado, apenas três processos estão em andamento no Incra: a Invernada Paiol de Telha, em Reserva do Iguaçu, com 393 famílias; João Surá, em Adrianópolis, com 34 famílias; e Água Morna, em Curiúva, que tem 16 famílias. A comunidade de Arapoti ainda não fez pedido de certificação junto à Fundação Palmares.(A.M.P.)

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