Presença americana na Amazônia preocupa autoridades brasileiras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de novembro de 2000
Beatriz Lecumberri De Tabatinga France Presse 
As autoridades brasileiras estão mais preocupadas com as consequências da presença militar americana nas proximidades da selva amazônica -prevista no Plano Colômbia- do que com a extensão do narcotráfico e da guerrilha a seu território.
Esperamos que os Estados Unidos não participem diretamente em nenhum combate pelo simples fato de que não saberão como vender essa guerra em seu país, comenta o general Clovis Bandeira, do Comando Militar da Amazônia (CMA).
Depois de anunciado o Plano Colômbia do governo de Bogotá para acabar com os cultivos de coca, estabelecer a paz e tirar o país da crise econômica, o Exército brasileiro prestou particular atenção a seus 1.644 km de fronteira com a Colômbia, intensificou a vigilância e comprovou que por enquanto não precisa preocupar-se.
Não existe risco de uma ofensiva guerrilheira da mesma forma que não é possível que as plantações de coca sejam levadas para a Amazônia, por ser uma região muito quente nem tampouco que grandes laboratórios se instalem na selva, devido à distância do centro de produção de coca.
Além do problema relacionado a uma possível migração em massa de civis que fogem da guerra, o Exército brasileiro se preocupa com o 1,3 bilhão de dólares que Washington destinou ao Plano Colômbia.
A assistência americana inclui o treinamento de dois batalhões antinarcóticos do Exército colombiano, que se somarão aos militares treinados ano passado, e o fornecimento de helicópteros. Washington assegura que 500 assessores americanos estarão envolvidos nessas tarefas.
Os Estados Unidos querem combater o narcotráfico que tanto castiga sua sociedade, mas isso não pode ser feito sem o ataque à guerrilha. É difícil separar as duas coisas, não sei como o Plano Colômbia vai fazê-lo mas esta situação é muito perigosa, afirma cauteloso o general Bandeira.
Os dirigentes brasileiros sabem que o controle da ansiada região amazônica virá pelo domínio das águas e temem que os Estados Unidos acabem intervindo militarmente nas nascentes dos grandes rios como o Negro ou o Solimões, que quilômetros depois entram no Brasil.
Em entrevista à Agência France Presse, Andrés París, porta-voz das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), afirmou que o reforço militar do Brasil em suas fronteiras não é recebido como ameaça pela guerrilha.
Achamos que o Brasil quer se prevenir contra a presença de tropas dos Estados Unidos, país que pensa em expropriar a Amazônia brasileira, acrescentou, destacando que as Farc têm em relação ao Brasil uma política de paz.
No entanto, para os dirigentes militares colombianos da região de fronteira, o temor brasileiro não tem justificativa, uma vez que o Plano Colômbia e a ajuda americana são mais amplos que o puro aspecto militar.
As pessoas pensam no Plano Colômbia e imaginam helicópteros de guerra, bombas e civis fugindo. Mas é uma ação para a paz e ninguém vai transformar isto num Vietnã, garantiu o general colombiano Fernando Soler, responsável pelo Comando Unificado do Sul, com sede em Leticia, na fronteira com o Brasil.
O governo de Brasília também está preocupado com os efeitos perversos do composto químico que será utilizado para fumigar as plantações de coca numa região que conserva intactos os maiores tesouros naturais do planeta.
Sabemos que no pacote de ajuda americana à Colômbia existem aeronaves pulverizadoras e já temos ouvido que os produtos utilizados podem contaminar as nascentes de grandes rios que desembocam no Brasil, comenta preocupado Bandeira.
O general Soler destaca que o objetivo colombiano é erradicar 50% das plantações de coca mas não a qualquer preço.
O Plano Colômbia não afeta por enquanto a Amazônia porque está concentrado nas regiões com cultivo de coca, em Putumayo e Caquetá, tranquilizou.
Com ou sem o Plano Colômbia, dirigentes de organizações indígenas brasileiras denunciam que os Estados Unidos já começaram há anos a invasão cultural da Amazônia através da ação das correntes religiosas que trabalham com indígenas na região.
Se apresentam como pastores mas parecem biólogos ou engenheiros que roubam a cultura indígena, seus medicamentos fabricados com ervas, seu conhecimento das propriedades da flora e da fauna. É triste entrar numa aldeia onde eles já chegaram, lamentam.


