Washington, 21 (AE) - As vitórias confortáveis esperadas depois de amanhã, na prévia eleitoral de Iowa, do governador do Texas, George W. Bush, e do vice-presidente Albert Gore podem levar a um rápido desfecho do festival democrático que os americanos montam a cada quatro anos para escolher seus candidatos à presidência. Depois de ter sido ameaçado pelo ex-senador de Nova Jersey, Bill Bradley, o democrata Gore retomou o pé da situação e chega à disputa inaugural da fase preliminar da disputa presidencial claramente na liderança seu partido. As pesquisas mostram Bradley ligeiramente à frente do vice-presidente em New Hampshire, o estado que fará a primeira eleição primária na semana que vem. (Em Iowa não há votação, e os militantes de cada partido manifestarão suas preferências reunindo-se em conchavos em lugares pré-determinados para serem contados.) Mas as chances da campanha do ex-senador ganhar impulso parecem hoje mais remotas e podem ter sido comprometidas pela revelação, na semana passada, de novos episódios recentes de arritmia cardíaca, um mal de que sofre há alguns anos.
Do lado republicano, o senador John McCain, de Arizona, que não participará da prévia de Iowa, continua à frente de Bush em New Hampshire, mas com uma vantagem reduzida e sua estrela política em aparente declínio.
Se o impulso que Bush e Gore receberem em Iowa for suficiente para que eles batam seus respectivos desafiantes principais em New Hampshire, no dia 1 de fevereiro, ou pelo menos neguem-lhes vitórias convincentes, as campanhas de Bradley e McCain estão fadadas a perder altitude rapidamente, pois, embora tenham arrecadado muito dinheiro, as campanhas de seus rivais são mais ricas e contam com o suporte da máquina de seus partidos. Nesse cenário, que é considerado o mais provável pelos comentaristas políticos em Washington por margens de 70% a 30%, no caso dos candidatos democratas, e de 90% a 10%, no caso dos republicanos, os Estados Unidos assistirão à mais longa campanha presidencial de sua história Nas pesquisas nacionais, Bush, que é filho do ex-presidente George H.
Bush , mantém uma vantagem de 10 a 13 pontos sobre Gore, que é filho de um ex-senador. O vice-presidente é prejudicado por sua proximidade pessoal e política com o presidente Bill Clinton, que continua a ter margens historicamente altas de aprovação mas decepcionou profundamente os americanos com o escândalo sexual que o transformou apenas no segundo líder americano a sofrer um processo de impeachment.
Mas a diferença entre os dois candidatos já caiu para perto da metade do que era há três meses e tenderá a reduzir-se ainda mais à medida em que os americanos passarem a se interessar pela escolha de seu presidente, o que só deverá acontecer na reta final da corrida à Casa Branca, que só começa em setembro, depois das férias do verão no hemisfério norte.
Esse cálculo baseia-se em grande medida nas questões que preocupam os americanos no momento e que influenciarão suas escolhas não apenas para a presidência, para também para o Congresso. Quase todas favorecem os democratas. Com economia dos EUA no auge da prosperidade, saldos fiscais previstos pelos próximos vários anos no orçamento federal e o país em paz, os temas econômicos e de segurança que tradicionalmente pesavam nos cálculos dos eleitores foram substituídos por assuntos de interesse mais imediato para suas vidas. Pela ordem de importância, eles citam educação, o sistema de saúde e a previdência social. E acham, por margens consideráveis, que os democratas lidam melhor com esses temas do que os republicanos. Com o Partido Democrata reposicionado por Clinton no centro do espectro político, os temas prioritários da agenda nacional devem tornar as eleições legislativas deste ano difíceis para os republicanos mesmo que Bush mantenha a liderança.
Uma pesquisa interna encomendada pelo Partido Republicano, que vazou à imprensa na semana passada, indicou que nada menos de 25% dos eleitores que hoje manifestam preferência por Bush dizem que preferem os democratas para tratar dos temas que mais os preocupam e indicam disposição de votar para um candidato de oposição ao governador do Texas para a Câmara de Representantes e o Senado. Os democratas têm chances reais de retomar o controle da Câmara, que perderam em 1994 na investida conservadora liderada por Newt Gingrich. Tendo perdido cadeiras nas eleições legislativas de 1996 e 1998 (os deputados americanos tem mandatos de apenas dois anos), os republicanos tem hoje uma vantagem de apenas dez votos sobre os democratas nas 435 cadeiras da Câmara. E há mais deputados republicanos do que democratas em posição vulnerável na disputa da reeleição.
Os conservadores estão em situação mais confortável no Senado, onde ocupam 55 cadeiras, contra 45 de seus adversários. Mas têm o maior número de vagas em jogo (19 contra 14 dos democratas) e podem ver sua vantagem diminuir e mesmo desaparecer, na hipótese de Bush tropeçar em sua, até agora, fulgurante campanha à Casa Branca.
Considerado um político intuitivo, talentoso e carismático mas um intelectualmente desequipado, Bush precisa ainda provar aos americanos algo a respeito do qual eles não têm dúvida em relação a Gore: de que é um homem preparado para assumir o comando da nação.

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