Premiação reconhece a inovação e qualidade do transporte coletivo de Londrina
Sistema de ônibus conquista segundo prêmio em menos de dois anos e se consolida como referência em tecnologia e gestão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de novembro de 2026
Sistema de ônibus conquista segundo prêmio em menos de dois anos e se consolida como referência em tecnologia e gestão
Aline Machado Parodi - Especial para FOLHA 

O transporte coletivo de Londrina voltou a ganhar reconhecimento. O projeto "Sistema ITS: Bem-estar em Movimento" está entre os premiados da 14ª edição do PGP-PR (Prêmio Gestor Público Paraná), que reconhece iniciativas de gestores públicos municipais. Das 177 iniciativas homologadas, de 69 municípios, 38 foram contempladas, em 31 cidades. A cerimônia de premiação será realizada no dia 10 de novembro, às 18h, na Alep (Assembleia Legislativa do Paraná).
É o segundo reconhecimento conquistado pelo sistema em menos de dois anos. Em fevereiro de 2025, Londrina venceu a 4ª edição do Prêmio P3C, na categoria Melhor Gestão Pública de Projetos Municipais, com o projeto de inovação nos contratos de concessão do transporte coletivo e implantação do ITS (Sistema Inteligente de Transporte). A premiação ocorreu na sede da B3, em São Paulo, em um evento que reuniu mais de 210 projetos concorrentes.
Por trás dos prêmios está uma transformação na maneira de administrar o transporte público, com investimentos em tecnologia, integração entre poder público e concessionárias e acompanhamento da operação em tempo real. O objetivo é melhorar a experiência do passageiro, otimizar os recursos e tornar o sistema mais eficiente.
O principal instrumento dessa mudança é o Ciop (Centro de Inteligência Operacional), que reúne, no mesmo ambiente, a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) e as duas empresas responsáveis pela operação, TCGL (Transportes Coletivos Grande Londrina) e Londrisul. A estrutura permite acompanhar os ônibus, monitorar a quantidade de passageiros, avaliar o desempenho das linhas e tomar .
"É o reconhecimento de um trabalho sério, que o prefeito Tiago Amaral pediu desde o primeiro dia: tratar o transporte coletivo como um serviço público de verdade, feito para o londrinense", disse o diretor-presidente da CMTU, Renan Salvador
Segundo ele, a tecnologia permite identificar a demanda de cada linha e adequar a operação às necessidades da população. "Foi trocar o 'achismo' por informação. Hoje a gente sabe, todo dia, como está cada linha, cada viagem e quantas pessoas cada ônibus levou”, afirmou.
O acompanhamento também chega ao usuário, que pode consultar a previsão de chegada dos veículos pelo aplicativo MOV e pelos painéis dos terminais. "O passageiro olha no celular e sabe a hora que o ônibus vai passar. E a gente sabe onde cada ônibus está e quantas pessoas estão dentro dele. Com isso, dá para colocar o ônibus onde o povo está, na hora que o povo precisa", comentou Salvador.
A tecnologia também se reflete na estrutura da frota. Atualmente, 65% dos ônibus têm ar-condicionado, e a idade média dos veículos é de dois anos e meio. Os coletivos contam com suspensão a ar, motores Euro 6, internet e entradas USB e USB-C para carregamento de celulares. O sistema de segurança inclui câmeras nos ônibus e terminais, monitoradas por uma central.
Essa tecnologia embarca se reflete em conforto para o passageiro que aprova os ônibus de Londrina. A auxiliar de serviços gerais Aparecida de Fátima dos Santos, de 56 anos, usa diariamente o transporte público para ir e voltar do trabalho. Um trajeto que pode levar até uma hora. “Os ônibus são bons, tem ar-condicionado e são confortáveis. Ele também tem wi-fi, o que facilita quando preciso usar a internet”, avaliou Aparecida.
Ela sugere que haja mais ônibus no horário de pico. Segundo ela, no fim do dia, os veículos ficam muito cheios e, às vezes, é difícil fazer a viagem sentada. “Se tivesse dois ônibus no mesmo horário ficaria bom”, comenta.
Sueli Aparecida dos Santos, 56 anos, também elogia o transporte público. “É confortável, tem ar-condicionado. As viagens são rápidas. Em vista do que era antes, está muito bom”, disse Sueli.
Modelo de gestão chama a atenção
O vice-presidente de contas estratégicas da HMMS (Hitachi Mobility Multimodal Solution), Maurício Biazotto Corte, que participou da implantação do ITS (Sistema Inteligente de Transporte), considera Londrina pioneira na introdução da tecnologia avançada de ITS na América Latina.
Segundo ele, o diferencial não está apenas nos equipamentos, mas principalmente no modelo de gestão. "Para mim, a grande inovação que a CMTU trouxe foi reunir no mesmo lugar duas empresas concessionárias e o órgão gestor. Isso traz uma dinâmica muito diferente ao processo, na qual há uma maior transparência e uma maior agilidade na tomada de decisão”, avalia Corte.
Ele destaca que a integração acontece também durante situações emergenciais, como episódios de chuvas intensas, quando as equipes trabalham conjuntamente para manter o atendimento à população.
O especialista aponta ainda que Londrina alcançou uma recuperação da demanda de passageiros próxima de 90% em relação ao período anterior à pandemia, enquanto a média nacional, segundo ele, fica entre 70% e 75%. "O que isso mostra? Mostra a credibilidade do cidadão no sistema de transporte do município", disse.
Para Corte, os prêmios são consequência de um trabalho que atravessa diferentes administrações e demonstra continuidade das políticas públicas. "Os prêmios são consequência de um trabalho importante que a cidade vem realizando em prol do cidadão", afirmou.
Ele ressalta, porém, que a implantação tecnológica é um processo contínuo. Entre as novidades incorporadas estão recursos de telemetria e um módulo de gerenciamento de interrupções, que permite organizar desvios e operações especiais. Também estão em desenvolvimento possibilidades de integração com sistemas de imagens e informações por voz dentro dos veículos.
Avaliação positiva da população
O reconhecimento externo acompanha uma percepção positiva dentro da própria cidade. Presidente do Fórum Desenvolve Londrina, Angelo Pamplona afirma que o transporte coletivo costuma receber boa avaliação nas pesquisas anuais realizadas pela entidade.
O levantamento consulta aproximadamente 600 moradores de diferentes classes sociais e níveis de escolaridade. "O transporte coletivo sempre acaba recebendo uma boa avaliação junto à população. Não é o fórum que avalia, é a população que avalia o transporte coletivo", explica.
Pamplona destaca a idade da frota, o conforto dos veículos, a disponibilidade de Wi-Fi e ar-condicionado e os aplicativos que informam os horários das linhas. Ele também considera o centro integrado de operações um diferencial importante. "O transporte de Londrina, na minha opinião, é um transporte muito superior a muitas outras cidades do nosso país. A gente tem o privilégio de ter um bom transporte coletivo", afirmou.
Para ele, a qualidade da mobilidade também influencia a atratividade econômica do município. Um sistema eficiente facilita o deslocamento para o trabalho e o lazer, além de contribuir para que pessoas e empresas escolham Londrina para viver e investir.
"Quando você tem um transporte de qualidade que beneficia o usuário, e ele sai da casa dele e chega no emprego, no local de trabalho dele, ou no lazer, ou em outra situação que depende do transporte coletivo, isso vai gerar uma tranquilidade para esse usuário”, analisa Pamplona.
Próximos desafios
Apesar dos avanços, especialistas e representantes de entidades apontam que a mobilidade urbana precisa ser pensada para além dos ônibus. A integração com bicicletas, patinetes, transporte por aplicativo e melhores condições para pedestres está entre os desafios dos próximos anos.
Presidente da Governança Londrina Inteligente, Cristianne Cordeiro considera que o município está no caminho certo, mas ressalta a importância de ampliar o planejamento e envolver diferentes setores da sociedade.
"O modelo mobilidade está no caminho certo, que oferece mobilidade e conforto durante o transporte, porque às vezes as viagens são muito longas. Então, a gente tem que pensar em tudo isso. Com essas tecnologias agora, o nosso transporte tem alta qualidade", disse.
Ela lembra que Londrina possui características metropolitanas e precisa considerar também os deslocamentos entre municípios vizinhos. Nesse cenário, a integração entre modais e a estrutura urbana ganha importância.
Entre os conceitos discutidos está o de "cidade de 15 minutos", que prevê a criação de núcleos urbanos nos quais os moradores possam acessar serviços e atividades cotidianas com deslocamentos menores. A governança também acompanha iniciativas relacionadas a novos modais, como os patinetes elétricos, e defende melhorias na caminhabilidade, na segurança e nas calçadas.
Para o próximo ano, a CMTU pretende intensificar o uso das informações geradas pelo sistema para adequar horários e viagens à demanda real, diante da redução do número de passageiros observada em diversas cidades brasileiras e do crescimento de alternativas de deslocamento.
O diretor-presidente da CMTU afirma que a intenção não é eliminar linhas ou deixar bairros sem atendimento, mas utilizar melhor os recursos disponíveis. "Nenhuma linha vai acabar e nenhum bairro vai ficar sem ônibus. O que muda é que o sistema fica mais eficiente e mais forte, para continuar sendo um serviço público de excelência para a população de Londrina."
Para Maurício Biazotto Corte, a tecnologia pode contribuir para reduzir custos operacionais, especialmente com a ampliação da telemetria e da manutenção preventiva. Entretanto, ele pondera que a qualidade depende de equilíbrio entre eficiência financeira e oferta adequada de veículos.
O especialista também defende que o transporte público seja tratado como prioridade estratégica, independentemente das mudanças de governo. Para ele, a integração entre ônibus, bicicletas e patinetes será cada vez mais necessária, com infraestrutura adequada nos terminais e planejamento urbano de longo prazo.
A conquista dos prêmios reforça a posição de Londrina no cenário da mobilidade, mas também evidencia que o desafio vai além da modernização dos ônibus. A continuidade dos investimentos, a eficiência da gestão e a capacidade de integrar diferentes formas de deslocamento serão determinantes para manter a qualidade do serviço e atender às necessidades futuras da população.


