São Paulo, 18 (AE) - Os brasileiros que voltaram na semana passada para Puerto Indio, onde suas terras foram ocupadas por paraguaios, tiveram, até agora, um prejuízo de pelo menos US$ 100 mil com as invasões e destruições de propriedades. O balanço foi feito pelos pequenos proprietários de terras, em companhia de representantes paraguaios da Pastoral Social e Migratória do Alto Paraná. O documento, firmado por 34 "brasiguaios", como são conhecidos os brasileiros do lado paraguaio da fronteira, foi entregue ao consulado do Brasil em Ciudad del Este.
De acordo com o levantamento, quatro casas foram queimadas e 11 desmanchadas e sua madeira levada embora. Em contrapartida, já existem na região 77 barracos de "campesinos", como são chamados os sem-terra paraguaios. Desses, 41 estão habitados. Ao lado deles, já surgem as primeiras roças plantadas pelos paraguaios. Estima-se que haja pelo menos 2 mil campesinos acampados na área. Ainda segundo o relatório, 198 cabeças de gado desapareceram; 250 mil metros de arame farpado e 10 mil postes de cerca foram roubados, assim como um trator e implementos agrícolas.
Além disso, calculam os brasiguaios, foram cortados 650 metros cúbicos de madeira - sem a guia de autorização expedida pelo Ministério da Agricultura paraguaio -, cerca de 80% dos quais devem ter sido contrabandeados para o Brasil. Os pequenos agricultores brasileiros afirmam, também, que, por causa das invasões, já deixaram de plantar 93 hectares.
Alguns dos barracos ostentam a bandeira do Paraguai. O clima é de hostilidade aos brasileiros. Os campesinos usam uma rádio comunitária para instar os paraguaios ao "patriotismo" e encorajar as ocupações. Os invasores contam com um caminhão, fornecido pelos vereadores oposicionistas de San Alberto, município a 40 quilômetros de Puerto Indio, cujo prefeito, Romildo Maia, de origem brasileira, enfrenta movimento por sua destituição.
Os campesinos de Puerto Indio são usados como massa de manobra pelos cinco vereadores oposicionistas (de um total de nove), que pressionam pela destituição de Maia, sob acusação de desvio de verbas e favorecimento dos brasileiros, que representam 90% da população de 23 mil habitantes. Este mês, os campesinos, junto com moradores de San Alberto, já foram retirados duas vezes pela polícia da sede da prefeitura, que interditavam. Mas continuam mobilizados na cidade. Providências - Na segunda-feira, o cônsul-geral do Brasil em Ciudad del Este, Ernesto Alberto Ferreira, reuniu-se com o governador do Alto Paraná, Jotvino Urunaga, para discutir providências. Urunaga, por sinal único paraguaio que tem sua fazenda em Puerto Indio parcialmente ocupada pelos campesinos, garantiu que o governo está empenhado em resolver o problema.
A Polícia Nacional prometeu instalar uma delegacia em Puerto Indio. A delegacia mais próxima fica a 17 quilômetros e seu titular, Ariste Agustín Miranda, é acusado pelos brasiguaios de conivência com os campesinos. Já o Instituto de Bem-Estar Rural (IBR, equivalente ao Incra) comprometeu-se estudar a validade dos títulos de terra dos brasileiros. "Restituiremos as terras de proprietários legítimos e indenizaremos quem tivermos de indenizar, segundo a lei", disse á reportagem o diretor do IBR do Alto Paraná, Hermanegilo Alonso.
Mesmo que as autoridades cumpram as promessas, feitas há três semanas - e o governo brasileiro já se mostra impaciente com a falta de resultados concretos -, elas não resolverão os problemas dos brasiguaios. A maioria dos títulos, se não todos, tem origem questionável. Foram registrados em Assunção, onde é centralizada a burocracia notarial. Mas, juridicamente - pelo menos essa é a aposta dos campesinos, que de mal-informados não têm nada -, as terras pertencem ao Estado paraguaio, por terem sido, supostamente, do brasileiro Moacir Silvestre, que morreu em 1982, sem deixar herdeiros. Um certo Antonio Monteiro Camargo
também brasileiro, teria vendido os títulos ilegais.
Muitos brasiguaios não têm sequer documentos pessoais. A carteira de estrangeiro custa o equivalente a R$ 380 e a de identidade, outros R$ 170. Para pequenos agricultores, esses valores pesam. Sobretudo considerando que a maioria dos brasiguaios está pendurada em dívidas, contraídas nos bancos de Ciudad del Este em dólar, que se tem valorizado consistentemente
em contraste com a soja - principal produto da região -, cujo preço caiu no mercado internacional. São presa fácil.

mockup