Prejuízo de empresas quintuplicou no semestre
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de agosto de 1999
Por Denise Neumann 
São Paulo, 15 (AE) - As empresas brasileiras de capital aberto estavam pouco preparadas e protegidas para a desvalorização cambial e por isso acumularam prejuízos expressivos em sua contabilidade financeira. Um levantamento feito pela Economática (empresa especializada em softwares de informações empresariais) - envolvendo 41 companhias de capital aberto - mostra que, no primeiro semestre deste ano, o prejuízo financeiro foi cinco vezes maior que no mesmo período do ano passado.
Uma parcela significativa das empresas opera no mercado externo e, por isso, a desvalorização também trouxe resultados bastante positivos. Cresceram os ganhos com exportação, em que vendas em dólares são convertidas para reais. Na média, a receita do primeiro semestre cresceu 15,9% na comparação entre 1998 e 1999, apesar da desaceleração da economia.
O lucro obtido com a atividade das empresas (que não considera o lado financeiro) aumentou 48%. Na conta final, contudo, o lucro líquido das companhias acabou prejudicado e foi reduzido a um terço do que foi obtido no ano passado. No conjunto, as 41 empresas encerraram os primeiros seis meses de 1998 com lucro final de R$ 1,46 bilhão. Neste ano, no mesmo período, o lucro caiu para R$ 445 milhões.
A maior parte do prejuízo do primeiro semestre concentrou-se nos primeiros três meses do ano. Do total de R$ 3 4 bilhões de resultado financeiro negativo acumulado nesse período, 80% ocorreu no começo do ano. A grande maioria das companhias de capital aberto reconheceu o prejuízo provocado pela desvalorização cambial em janeiro e não utilizou a brecha concedida pelo governo que permitia diluir a perda ao longo do tempo, explica o presidente da Economática, Fernando Exel.
No segundo trimestre, o prejuízo financeiro foi 50% superior ao do ano passado, alcançando R$ 679 milhões de abril a junho de 1999. No mesmo período de 1998, ele ficou em R$ 452 milhões. Exel lembra que a taxa de juros média do segundo trimestre de 1999 esteve em torno de 26%, enquanto em 1998 esteve em 22%.
"A comparação dos balanços dos dois anos mostra que as companhias estavam com uma proteção (hedge) cambial que não era compatível com sua estrutura de financiamento externo", avalia Dan Cohen, chefe da área de análise de renda variável da Hedging-Griffo. Flávio Conde, analista-chefe da Lloyds Asset Management (LAM), do Lloyds Bank, também diz que os resultados dos balanços indicam que as empresas não estavam bem protegidas contra a desvalorização do câmbio.
Muitas empresas estavam endividadas em dólar, a maioria por ter feito algum tipo de captação de recursos no exterior. "Um prejuízo financeiro elevado indica que, na média, as empresas não possuíam uma proteção perfeita para suas operações em dólar", explica Gabriel Coutinho Jafet, sócio da Oryx Asset Management.
"Fazer operações de hedge, que funcionam como proteção, é caro", diz Conde, calculando que esse custo estava em 8% ao ano. Por isso, observa, muitas companhias não fizeram este tipo de operação para proteger dívidas e empréstimos tomados no exterior. A regra das sociedades anônimas, explica, obriga as empresas a reconhecerem imediatamente o aumento de dívidas decorrentes de um efeito como a desvalorização. "O estoque da dívida aumenta de um dia para o outro", observa Conde.
O efeito da desvalorização cambial sobre os balanços pode ter uma segunda rodada no terceiro trimestre. Os balanços do primeiro semestre foram fechados com o dólar cotado a R$ 1,76
lembra Conde, do Lloyds. Se a cotação do dólar em 30 de setembro - quando serão fechados os balanços relativos ao terceiro trimestre - for superior à cotação do fim de junho, haverá uma nova piora dos balanços, explica Conde. A recente alta do dólar - que fechou a sexta-feira cotado a R$ 1,876 - trouxe nova preocupação aos investidores, diz Conde. "As ações de algumas empresas que possuem muitas dívidas em dólar caíram mais que o Ibovespa por conta disso", afirma.
Na avaliação de Cohen, da Hedging-Griffo, a desvalorização acelerou processos de parcerias estratégicas ou venda de ativos para sócios estrangeiros. Ele cita a recente aquisição de parte do Pão de Açúcar pelo francês Casino e a intenção - declarada - da Globocabo de procurar um parceiro estratégico, como exemplos de negócios motivados pela desvalorização. Ele lembra que as ações da Globocabo subiram muito (mais de 300%) depois que diretores da emrpesa informaram que a companhia estava buscando um sócio no exterior para bancar os altos custos dos investimentos necessários para seu crescimento, que depende de equipamentos produzidos no exterior e cuja importação encareceu.


