São Paulo, 25 (AE) - O prejuízo com a desvalorização das ações do Banespa chega a R$ 418 milhões desde que a Receita Federal multou o banco em R$ 2,8 bilhões. O valor de mercado do Banespa caiu de R$ 2,177 bilhões - posição anterior à multa - para R$ 1,759 bilhão, na sexta-feira, segundo dados da Economática. A Receita está cobrando impostos devidos, multa e juros sobre um fundo de aposentadoria complementar criado pelo banco para funcionários admitidos até 1975. No jargão do mercado
"houve forte destruição de valor", explica Fernando Exel, da Economática.
Mesmo que a dívida seja renegociada em condições favoráveis, a multa estratosférica vai derrubar o patrimônio líquido do banco, fato que desencadeou forte movimento de venda do papel, como há muito não se via no mercado paulista. O volume médio de ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo mais que triplicou desde o dia 16 de setembro e a desvalorização das ações preferenciais acumulada no período supera os 18%. O estrago nas ordinárias - aquelas com direito a voto - foi ainda maior. Os papéis do Banespa estão no nível mais baixo desde a assinatura do acordo de renegociação da dívida de São Paulo com a União.
Em 15 de abril de 1998, as preferenciais eram cotadas a R$ 82,71 por lote de mil ações e fecharam na sexta-feira a R$ 53 70. As ações ordinárias, que chegaram a ser negociadas a R$ 66 00, fecharam a R$ 39,70 por lote de mil. "A combinação de volume alto e queda de preço mostra que a pressão de venda é muito forte", explica o analista de bancos do BBA-Icatu, Bruno Pereira. Ou seja, quem tem papel na mão está querendo livrar-se dele, o que não aconteceria se a queda fosse acompanhada de baixo volume. É claro que se alguém está vendendo é porque existe um comprador na outra ponta.
De fato, tudo é uma questão de preço. E se o papel deixou de ser interessante na faixa dos R$ 65,00, agora os investidores (fundos de investimentos e de pensão, entre outros) procuram um novo preço justo para negociá-lo. Uma tarefa nada fácil, considerando as profundas indefinições que envolvem o banco. Não se sabe se a diretoria vai ser ter sucesso no Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda e, principalmente, até que ponto o desfecho do caso pode atrasar a privatização do banco. Até agora, a lucratividade estava assegurada pelos ganhos de tesouraria provenientes dos juros altos, mas o próprio presidente do banco, Eduardo Guimarães, reconhece que o Banespa precisa ser privatizado para não enfrentar perdas no futuro. Risco político - As indefinições quanto ao futuro do Banespa são tão grandes que poucos analistas do mercado se arriscam a fazer previsões em relação ao futuro, pelo menos no curto prazo. E o papel, que desde a renegociação da dívida do Estado com a União figurou na lista das recomendações de compra de boa parte dos especialistas do setor, agora recebe a classificação de vender ou manter. É caso do BBA-Icatu. De acordo com Pereira, uma análise levando em conta apenas os números do banco fica em segundo plano hoje em dia, diante das incertezas, especialmente no montante final acertado para a dívida do banco.
Dos R$ 2,8 bilhões, R$ 1,150 bilhão referem-se a impostos, que, para a Receita Federal, deveriam ter sido recolhidos sobre as provisões de aproximadamente R$ 3 bilhões feitas pelo banco para o fundo de aposentadoria. Outros R$ 850 milhões referem-se a juros e o restante é multa. O banco fez o lançamento contábil das provisões como despesas operacionais, o que reduziu o montante do Imposto de Renda e a Contribuição Social sobre o Lucro líquido (CSLL) a pagar. Várias empresas privatizadas fizeram o mesmo. Mas a Receita entendeu que as provisões não são dedutíveis.
A multa, para o mercado, não foi novidade. O valor, sim. Esperava-se algo em torno de R$ 1,2 bilhão, segundo Bruno Zaremba, analista do Pactual. Desse montante, se descontariam os créditos tributários (deduções pelo pagamento de IR) que o banco tem a receber (algo em torno de R$ 500 milhões) e uma boa negociação reduziria ainda mais esse montante. Mas agora parte-se de um número duas vezes maior e, mesmo com hipóteses bastante otimistas, a redução no valor patrimonial vai ser significativa.
Os cálculos iniciais do governo paulista, considerados razoáveis pelo presidente do Banespa, Eduardo Guimarães, apontam para uma redução de R$ 1,5 bilhão no patrimônio líquido. Zaremba não mudou a recomendação do papel, que permanece de compra, mas ressaltou nas análises para os clientes que o potencial de valorização do banco é muito próximo das instituições privadas, mas sem o mesmo grau de risco do Banespa.

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