A famosa ‘‘malemolência ou preguiça baiana, na verdade, não passa de racismo’’, segundo concluiu uma tese de doutorado defendida na USP. O estudo durou quatro anos. A tese, defendida no início de setembro pela professora de antropologia Elisete Zanlorenzi, da PUC-Campinas, sustenta que o baiano é tão eficiente quanto o trabalhador das outras regiões do Brasil e contesta a visão de que o morador da Bahia vive em clima de ‘‘festa eterna . ‘‘Pelo contrário, é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha.
O objetivo da tese foi descobrir como a imagem da preguiça baiana surgiu e se consolidou. Elisete concluiu que a imagem da preguiça derivou do discurso discriminatório contra os negros e mestiços, que são 79% da população da Bahia.
A atribuição da preguiça aos baianos tem um teor racista, diz a pesquisadora. O estudo mostra que a imagem de povo preguiçoso se enraizou no próprio Estado por meio das elites de origem européia, que consideravam os escravos ‘‘indolentes . Depois, se espalhou de forma acentuada no Sul e Sudeste a partir das migrações da década de 40.
‘‘Todos os que chegavam do Nordeste viraram baianos. Chamá-los de preguiçosos foi forma encontrada para depreciar os trabalhadores desqualificados’’, diz. Elisete afirma que os próprios artistas da Bahia, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, têm responsabilidade na popularização da imagem.
Caymmi responde: ‘‘O baiano não é preguiçoso, mas acho que a fama não deixa de ter sua graça. Pela voz do povo, eu sou preguiçoso. Eu confirmo.’’
Caetano acrescenta: ‘‘A fama não corresponde à realidade. Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo. O número de composições de Caymmi (cerca de 100) pode ser menor que de outros artistas, mas ele faz música melhor do que todo mundo.
A antropóloga pesquisou a origem da preguiça em jornais de 1949 até 1985 e estudou o comportamento dos trabalhadores em empresas. O estudo comprovou que o calendário das festas não interfere no comparecimento ao trabalho. Em fevereiro (Carnaval), uma empresa do Pólo Petroquímico da Bahia teve mais faltas na filial de São Paulo que na baiana.
A Xerox do Nordeste, que fica na Bahia, ganhou dois prêmios de qualidade no trabalho, um deles dado pela Câmara Americana de Comércio.

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