Prefeitura de Santos, no litoral, é acusada de "exportar" mendigos para São Paulo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de setembro de 1999
Por Marcus Lopes 
São Paulo, 15 (AE) - A cidade de Santos, no litoral paulista, pode estar "exportando" moradores de rua para a capital. Ontem (14), agentes da Operação Inverno da Secretaria Municipal da Família e Bem-Estar Social encontraram um mendigo que afirma ter sido conduzido contra sua vontade para São Paulo por funcionários da prefeitura de Santos. O caso será analisado pelo Ministério Público Estadual (MPE), e pode até resultar em uma ação civil pública sobre a denúncia.
O morador de rua Joaquim Anézio Moreira, de 34 anos, afirma que, no sábado à tarde, foi recolhido para um albergue em Santos. No domingo de manhã, ele e outros mendigos foram colocados em duas peruas que seguiram para São Paulo. "Vim contra a minha vontade", disse Moreira, hoje, no abrigo do Projeto Gente, no Canindé, zona norte, onde está abrigado. Em São Paulo, ele conta que as peruas pararam em uma rua do Ipiranga, zona sul. "Eles nos mandaram descer e disseram que não era para voltarmos mais para Santos", contou Moreira.
"Eles nos disseram que estavam nos ajudando, mas que tipo de ajuda é essa que nos trazem para um lugar contra a nossa vontade?", ironizou. Ontem, Moreira foi localizado, sem sapatos e apenas com a roupa do corpo, na Rua Santa Cruz, no Ipiranga. Após saber da história, uma das coordenadoras da Operação Inverno, Cely Farah, convenceu-o a registrar um boletim de ocorrência, por constrangimento ilegal. O boletim foi registrado no 12º Distrito Policial (Pari).
Ex-vendedor de ferro-velho, Moreira mudou-se para Santos há dois anos. "Fui tentar a vida lá", diz. Após passar um período exercendo a mesma atividade que tinha em São Paulo, um acidente o impediu de continuar trabalhando. Passou então a pedir esmolas nas ruas próximas ao Canal 4. "Morava em um casarão abandonado com minha irmã, que não deve nem estar sabendo o que aconteceu comigo", disse. Após o episódio, Moreira, que nasceu em Pedralva (MG), não quer mais voltar para o litoral. "Quero ver se arrumo alguma coisa por aqui", disse.
Sem surpresa - Segundo as assistentes sociais que trabalham no Projeto Gente, Moreira deve ficar no abrigo e, eventualmente, pode ser inscrito nas frentes de trabalho da Prefeitura. A secretária municipal da Família e Bem-Estar Social, Alda Marco Antonio, disse que o episódio não causou surpresa na secretaria. "Temos notado que ônibus de outras cidades deixam mendigos aqui", disse a secretária. "Até então tínhamos respeitado porque não havia provas dessa prática", completou.
Pela manhã, ela entregou cópia do boletim de ocorrência para o prefeito Celso Pitta (PTN). "Na mesma hora o prefeito entrou em contato com o Ministério Público Estadual", afirmou a secretária. O promotor Fernando Capez disse que o caso será analisado pela Promotoria de Justiça da Cidadania. Ele solicitou cópia do boletim de ocorrência e outros subsídios para uma eventual ação civil pública. "O caso pode ser trabalhado aqui ou pelos promotores de Santos", disse Capez.
Segundo ele, o episódio pode dar início à uma ação por sequestro ou constrangimento ilegal. "Caso haja funcionários públicos envolvidos, eles podem ser responsabilizados por improbidade administrativa", completou o promotor.


