Curitiba - Neste domingo (9), equipes da prefeitura de Curitiba trabalharam na CIC (Cidade Industrial de Curitiba) após um incêndio de grandes proporções ter destruído cerca de 100 casas na noite de sexta-feira (7), conforme estimativa da Defesa Civil. A tragédia ocorreu na Vila Corbélia, uma área de ocupação. Segundo os bombeiros, não houve vítimas pelo incêndio e ainda não se sabe o que provocou as chamas.

Cerca de 100 casas foram atingidas pelo incêndio na Vila Corbélia, na Cidade Industrial de Curitiba: dez viaturas e 30 bombeiros combateram as chamas durante quatro horas
Cerca de 100 casas foram atingidas pelo incêndio na Vila Corbélia, na Cidade Industrial de Curitiba: dez viaturas e 30 bombeiros combateram as chamas durante quatro horas | Foto: Corpo de Bombeiros/ Divulgação



Um agrupamento dos bombeiros retornaria na tarde de sábado (8) para fazer o rescaldo, já que a operação foi interrompida na madrugada por falta de segurança, mas, segundo o tenente Bruno Arantes Hanauer, não houve intervenção dos bombeiros porque "a situação ainda estava insegura e não tinha mais focos de incêndio".
"Instalamos um gabinete de gestão de crise na Regional", informou o prefeito Rafael Greca. "Todas as equipes estão de prontidão para fazer os encaminhamentos que forem necessários para atender os moradores que foram atingidos."

Segundo a prefeitura, até a tarde de domingo (9), as equipes em contingência registraram 134 atendimentos desde o incêndio. A FAS (Fundação de Ação Social), disse que durante a madrugada de sexta (7) para sábado (8) aproximadamente 80 pessoas que tiveram suas casas atingidas pelas chamas foram recepcionadas na Escola Municipal Doutor Hamilton Calderari Leal e receberam colchões, cobertores e alimentos. Segundo a prefeitura, 15 pessoas pernoitaram na escola no primeiro dia. As demais preferiram ir para a casa de parentes e amigos.
De sábado para domingo, o abrigo foi transferido para a ONG (Organização Não Governamental) Anjos, que recebeu 18 pessoas. As crianças terão aula normalmente na escola Doutor Hamilton Calderari Leal. Segundo a prefeitura, "as equipes estão preparadas para acolher as crianças".
A prefeitura também informou que o Cras (Centro de Referência da Assistência Social) Corbélia, aberto durante todo o final de semana, está atendendo os moradores prejudicados, provendo as demandas emergenciais e dimensionando as necessidades da população. Até o meio dia deste domingo foram 54 atendimentos registrados.
"Ao todo foram distribuídos 34 cestas básicas, 48 cobertores, 32 colchões, roupas para 75 famílias, 34 kits de higiene, lonas, fraldas e leite", afirmou a FAS
São dois inquéritos paralelamente em andamento. Um trata da morte do policial militar e a outra investigação, do incêndio, está sob competência da Deam (Delegacia de Explosivos Armas e Munições).

A Sesp (Secretaria de Segurança Pública) determinou à Polícia Civil a apuração rigorosa das causas do incêndio. Segundo a Polícia, "um inquérito policial será instaurado pela Deam para apurar o caso. Uma equipe já foi designada para atender o local. O Instituto de Criminalística foi acionado também para exames periciais".
A Polícia Civil ainda afirmou, por meio de nota, que um suspeito do homicídio contra o policial militar já se apresentou e será ouvido pela DHPP (Divisão de Homicídios e Proteção a Pessoa), "já que não pode ficar preso pois não havia mandado de prisão em seu nome no sistema da Polícia Civil do Paraná".

O INCÊNDIO

Cerca de dez viaturas e 30 bombeiros combateram as chamas durante cerca de quatro horas. Segundo informações da PMPR (Polícia Militar do Paraná), o primeiro foco foi identificado por volta das 22h30. O fogo se alastrou rapidamente devido à proximidade entre as casas da vila, conforme relatou o tenente Hanauer, do CBM/PR (Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Paraná).

Ainda não houve informações sobre o que provocou o incêndio. Segundo relatos dos bombeiros e da PM (Polícia Militar), um caminhão da corporação foi atingido por uma pedra ao chegar ao local. Um socorrista relatou ter sido atingido na nuca, "por pedra ou paulada". As equipes deixaram a vila por volta das 4h.

Em entrevista coletiva da PM na manhã deste sábado, o coronel Péricles de Matos, Comandante do 1º Comando Regional, disse que as informações preliminares indicam que o incêndio foi provocado por integrantes do crime organizado em retaliação à comunidade, que teria ajudado a polícia a identificar suspeitos de assassinar um policial na madrugada de sexta-feira (7).

O soldado Erick Norio foi morto após ser atingido por uma rajada de metralhadora quando atendia uma solicitação de perturbação de sossego na Vila Corbélia pouco depois da meia-noite de sexta.

"Foi a própria comunidade que nos deu todas as informações para a elucidação desse homicídio. A comunidade, aquele setor que não se envolve com a atividade crime organizado, hoje sofreu uma reprimenda, uma retaliação do crime organizado que atuava lá", disse Matos.

Desde a morte do soldado, a polícia estava em operação no local. Além do PM, outras duas mortes por arma de fogo ocorreram no período - uma delas, horas após a morte do policial. A segunda vítima, um adolescente, morreu durante esta madrugada.

A primeira residência em chamas foi avistada minutos após o atendimento da polícia a uma tentativa de roubo a um motorista do aplicativo Uber no local. Segundo a PM, ele foi cercado por oito pessoas em uma viela e sofreu um ataque a tiros, sendo atingido no pescoço. Cerca de uma hora depois, o primeiro cadáver foi encontrado. Os policiais relataram dificuldades de entrar na comunidade por ações dos próprios moradores.

O coronel Antônio Zanatta Neto, Chefe do Estado Maior da PM, disse que tanto as mortes quanto o incêndio serão investigados. Ele respondeu a questionamentos sobre acusações ouvidas por jornalistas que implicariam policiais no que seria um incêndio criminoso. Representantes de veículos também levantaram relatos de agressões a moradores e invasões de residências sem mandado judicial. O coronel rechaçou as acusações e reforçou que a polícia trabalha com a hipótese de retaliação do tráfico de drogas, apontando que há rivalidade entre facções que atuam na região.

"Todos os policiais militares estavam identificados - inclusive os de serviço de inteligência. Entendemos que a grande parte que estava falando que (os policiais entraram) marchando são pessoas ligadas ao crime. Podem ser pessoas da vila de baixo, de outro estabelecimento, que estariam repelindo a atuação da PM e estaria jogando a conta desses fatos à PM. Não admitimos isso", disse. "Tudo vai ser investigado."

TERROR

Uma moradora ouvida pela FOLHA em condição de anonimato, por medo de retaliação, contou que, após a morte do soldado, na madrugada de sexta (7), os policiais que atenderam a ocorrência voltaram à invasão e passaram toda a noite em ação para encontrar os autores do homicídio. Segundo ela, as ações foram violentas. "Ficaram até o dia seguinte quebrando barracos, batendo em moradores, ameaçando, impedindo a gente de sair de casa. Ficamos com medo, pois davam tiros para o alto", relatou.
Ela disse que, com a chegada de mais policiais na noite de sexta, uma casa foi incendiada. "Esse foi o fogo que se alastrou", disse.
Para a moradora, a hipótese de que criminosos que atuariam dentro da comunidade seriam os responsáveis pelo incêndio não é plausível.
"Até os vagabundos têm família. Eles iriam querer que suas próprias famílias perdessem tudo? Vão botar fogo em suas próprias casas? As pessoas mal têm o que comer. Moram em barracos porque não têm lugar melhor", disse.

A moradora da vila relatou que perdeu parte de um quarto atingido pelo fogo e a água usada no combate ao incêndio. "Está uma bagunça aqui. É difícil olhar para tudo jogado, para tantas coisas perdidas", contou.

Renato Almeida Freitas Junior, advogado ligado ao movimento de moradia, disse à reportagem que presenciou ilegalidades da polícia. "A narrativa é inequívoca: morreu um policial na região. São quatro ocupações por aqui e a polícia achou por bem aterrorizá-las", acusou. Segundo o advogado, perto do local da ocupação os policiais teriam entrado em mais de 30 casas, em uma reação violenta e ilegal ao homicídio do policial militar.

"Levaram um rapaz para o mato, o escalpelaram e o mataram. Voltaram para a comunidade e plantaram o terror. Ficou dado o recado", denunciou Junior, sobre a ação dos policiais. Segundo ele, além desse rapaz, outra pessoa foi morta sob suspeita de estar envolvida no homicídio do PM. "Tudo na base do achismo dos policiais", afirmou.

O advogado disse que foi colocado fogo em uma casa e logo se alastrou porque eram casas de madeira que se conectavam às outras. Para Júnior, o número de casas afetadas foi muito maior: mais de 300. "Há também pessoas desaparecidas, três mortos, tragédia e ameaças muito assustadoras", declarou.

O militante contou que as pessoas estão com receio de divulgar informações por medo da represália policial. "É uma situação extrema. Não é mero direitos humanos".

O coronel Antônio Zanatta Neto, por outro lado, disse que "entendemos que a grande parte que está falando que (policiais) estavam marchando, que foram policiais militares, são pessoas que em algum momento estão ligadas ao crime. Inclusive temos informações que eram da vila de baixo, de um outro estabelecimento, que estariam repelindo a ação e jogado a conta desses fatos para a Polícia Militar. Nós não admitimos isso".

Durante a coletiva, o coronel frisou que a instituição, "é a maior interessada em trazer isso com muita transparência. Agora, vamos trabalhar com muita determinação nesse caso. Tenho dito sempre: a nossa instituição é comprometida, sim, com os direitos e garantias fundamentais. Queremos que essas pessoas que disseram venham. Nós temos uma corregedoria aberta. Coloquem, tragam imagens. Fomos buscar imagens dessas falácias que estão divulgando, lamentavelmente querendo colocar em risco todo o trabalho sério que temos realizado. Em um ambiente que, inclusive, precisamos destacar: numa área de invasão, em que nós últimos dias recolhemos armamento, drogas, munição. Então precisamos esclarecer todos os fatos".

O advogado ligado aos moradores está auxiliando na arrecadação de materiais e alimentos às pessoas prejudicadas pela tragédia na comunidade. Ele lembrou que quem quiser ajudar pode ir diretamente à ocupação ou mandar mensagens para o (41) 9-9696-0034.

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