Porto Alegre, 31 (AE) - Um ato público organizado hoje pela Prefeitura de Guaíba (RS) reuniu cerca de 600 manifestantes em Porto Alegre, que protestaram contra o não-pagamento da parcela de R$ 68 milhões pelo governo do Estado à empresa Ford. O prefeito de Guaíba, Nélson Cornetet (PTB), teme que a falta do pagamento - acertado pelo governo anterior, de Antonio Britto (PMDB) - acabe fazendo a Ford desistir de implantar uma montadora de automóveis no seu município.
Doze prefeitos da mesma região, a Centro-Sul, aderiram à manifestação, realizada diante do Palácio Piratini e que durou 1h30. Houve empurra-empurra entre os manifestantes - que jogaram ovos no palácio e ameaçaram invadir a sede de governo - e deputados do PT e seguranças, mas sem deixar feridos.
Surpreendentemente, o governador Olívio Dutra (PT) desceu do seu gabinete, atravessou a avenida Duque de Caxias e subiu no carro de som dos adversários políticos. "Estamos onde gostamos de estar, no meio da luta", anunciou. Mesmo sob vaias - "Eu vim aqui fazer o que; botar o Olívio pra correr", gritavam alguns manifestantes - Dutra reafirmou o discurso do governo e reiterou que as maiores multinacionais do mundo "não precisam de favores do dinheiro público".
O Rio Grande do Sul, segundo ele, irá direcionar seus recursos "para a educação, a saúde e o saneamento básico" e que, agora, as verbas estão fazendo falta "às crianças e aos velhos". Após o discurso do governador, um dos líderes da oposição ao governo estadual, o presidente da Assembléia Legislativa, Paulo Odone (PMDB), cumprimentou o governador por descer à praça para "enfrentar um problema crucial" e colocou a AL à disposição para ajudar nas negociações com a Ford. Enquanto Odone falava, um líquido foi atirado e respingou em Olívio e no presidente da AL. Não havia policiamento ostensivo no local.
Três ex-secretários de Britto, o deputado federal Nélson Proença e os estaduais Cézar Busatto e Berfran Rosado, todos do PMDB, além de Onix Lorenzoni (PFL), também da base de sustentação do governo anterior, participaram do protesto.
Olívio tem afirmado que deseja a manutenção da montadora
mas que o Rio Grande do Sul não pode drenar recursos da área social para emprestá-lo a Ford, em condições excepcionais - sem correção monetária, 6% de juros anuais e com prazo de 15 anos para pagar, sendo cinco de carência. O Estado quer renegociar o contrato firmado por Britto, mas em bases consideradas menos pesadas para os cofres públicos. Pelo que está em vigor, o Rio Grande do Sul deve emprestar R$ 180 milhões à multinacional.
O ex-secretário da Fazenda de Britto, Cézar Busatto, assegura que R$ 185,4 milhões estão depositados em uma conta do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) para serem destinados à Ford, e que a administração atual só precisa liberá-los. Porém, além dos R$ 180 milhões, o contrato especifica que mais R$ 207,6 milhões terão que ser gastos pelo Estado para construir benfeitorias a serem entregues à Ford, que igualmente contará com isenção total do ICMS. No final da tarde, Olívio argumentou que o Estado, que possui um passivo a descoberto de R$ 1,2 bilhão, não poderá abrir mão de recursos escassos para repassá-los à empresa.

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