Prefeitos da região não chegam a consenso sobre isolamento
Grupo que representa 21 municípios volta a se reunir nesta quarta-feira (17) pelo terceiro dia consecutivo para discutir medidas mais rígidas; Estado prorrogou decreto com regras de restrição
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de março de 2021
Grupo que representa 21 municípios volta a se reunir nesta quarta-feira (17) pelo terceiro dia consecutivo para discutir medidas mais rígidas; Estado prorrogou decreto com regras de restrição
Pedro Moraes - Grupo Folha 

Os prefeitos das 21 cidades que compõem o Cismepar (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paranapanema) encerraram mais uma reunião nesta terça-feira (16) sem conseguir chegar a um consenso sobre medidas unificadas na região para frear o avanço da infecção do coronavírus. As diferentes realidades socioeconômicas dos municípios dificultam uma solução comum. Fato é que nenhum dos chefes de executivo querem restringir as atividades comerciais – a preocupação com os efeitos financeiros é enorme –, mas há uma consciência coletiva de que a Covid-19 precisa ser controlada urgentemente. O grupo deve voltar a se reunir nesta quarta-feira (17) para discutir a reedição do decreto de Ratinho Junior (PSD), prorrogado até as 5h do próximo dia 1º, que não alterou as restrições já vigentes para combater o quadro de calamidade de saúde pública em que o Paraná se encontra.
Um dos integrantes da reunião, o prefeito de Cambé, Conrado Scheller (DEM), entende que o fórum é muito produtivo, mas somente diante da decisão do Estado seria possível tomar novas medidas. A decisão do governador foi divulgada na noite desta terça-feira (16). “Só então podemos retomar o debate para saber o que é possível acompanhar no sentido mais restrito ou se vamos trabalhar de uma forma individualizada”, disse. Sua gestão, no entanto, já tem uma perspectiva. Caso as medidas sejam mantidas como estão, a cidade deve agir diferente. “Vamos fazer um decreto para tentar, de forma cirúrgica, atingir algumas aglomerações desnecessárias e apertar algumas atividades que podem ter um melhor controle de entrada e saída de clientes”, explica o prefeito, que só acha justo um lockdown que tenha regras iguais para estabelecimentos grandes e pequenos.
Dentro do próprio Cismepar há um racha de opiniões, como expõe o presidente do grupo, Marcos Antonio Voltarelli (PSD), de Alvorada do Sul. Mesmo assim, todos os 21 membros aprovaram uma minuta de uma proposta para um decreto regional. A ideia seria fechar tudo por cinco dias e voltar a abrir gradativamente. Mas uma das principais resistências é feita pelo prefeito de Londrina, Marcelo Belinati (PP), que tende a seguir o modelo do Estado. “Entendo o posicionamento dele, se comparado à Curitiba, a fila na região é menor. Mas sou cobrado pela minha população que está em pânico. Qualquer doente nosso tem esperado dois dias por um leito. Questiono: e se fosse um parente nosso? Eu não tenho estrutura, não tenho um infectologista para me auxiliar”, afirma Voltarelli. Alvorada do Sul, Primeiro de Maio e Sertanópolis vivem um dilema e devem seguir Bela Vista do Paraíso e fechar tudo, mesmo sem ação do estado. “O correto seria ter uma decisão em conjunto, mas não parece ser possível”, lamenta Voltarelli. Procurado pela FOLHA, Belinati não se pronunciou.
Depois de anunciar medidas de restrições duras entre os dias 26 de fevereiro e 10 de março, o Palácio Iguaçu autorizou a reabertura do comércio e a volta às aulas – fato que não se concretizou. O período não foi suficiente para conter a disseminação do vírus e, em todo o estado, a lotação nos hospitais e os picos de novos casos e mortes continuam acontecendo. Em Curitiba, na sexta-feira (12), a decisão adotada foi o lockdown: indústria e serviços não essenciais foram proibidos de funcionar e houve suspensão das aulas presenciais nas redes pública e privada. A Sesa (Secretaria Estadual de Saúde) não dá maiores detalhes sobre os critérios adotados pelo governo para restringir ou liberar a circulação de pessoas. “A Secretaria divulga os dados diariamente e o que se tem visto é que vivemos um momento sério. Cabe aos prefeitos tomarem as medidas que forem necessárias. A decisão final sobre o que será feito sempre cabe ao governador”, explica Vinicius Filipak, diretor de Políticas de Urgência e Emergência da Sesa.
Está claro que não só no Estado, como nas cidades, há uma enorme dificuldade em se tomar medidas amargas para combater a circulação de pessoas. A crise econômica já instalada pressiona os governantes, que têm visto a lista de mortos crescer diariamente, mesmo assim não apresentam critérios técnicos baseados na ciência para chancelar o que dizem. Ao reeditar o decreto, o governador do Paraná conclamou o auxílio da sociedade. “Contamos com o bom senso de toda a população para seguir as restrições impostas pelo Decreto, como o toque de recolher e o isolamento social mais intenso aos fins de semana. Ainda não é momento de manter uma rotina normal”, afirmou. “Dessa maneira, juntos, podemos conter a contaminação de mais pessoas pelo vírus e reduzir o impacto causado por casos graves no nosso sistema hospitalar”.
Entidades médicas alertam que o tempo para conter a gravidade da pandemia já passou
Tal ausência ecoa entre os médicos e demais profissionais da linha de frente. O Simepar (Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná) reivindica medidas concretas para amenizar o que considera um colapso da saúde. “Faltou preparo e a previsão de que isso poderia acontecer. Não foi feito um trabalho de retaguarda, assim como houve atraso na compra das vacinas”, avalia o médico Marlus Volney de Morais, presidente em exercício do sindicato. Ele atua no sistema de regulação de leitos do Estado. “Converso diretamente com quem está na ponta e posso dizer que o desgaste é imenso. Tem paciente necessitando de UTI que é colocado em UPAS”, explica.
O CRM-PR (Conselho Regional de Medicina do Paraná) ampliou o número de pacientes por médico de 10 para 15, numa tentativa de aumentar a capacidade de atendimento. A realidade é que os médicos estão multiplicando os plantões e já relatam sérios danos psicológicos e físicos. “Vejo médicos e a equipe de enfermagem chorando. Para mim, o que foi emblemático foi ver o secretário de saúde Beto Preto chorando. É preciso tomar uma decisão. Vivemos um cenário que não gostaria de ver. Não há planejamento e é fundamental que mantenhamos o isolamento”, alerta Morais.
Há uma equação macabra que acompanha os profissionais de saúde e os gestores que não consegue ser resolvida: o vírus se alastra numa velocidade superior à capacidade de se criar novos leitos. Não se trata mais de uma questão de camas e equipamentos. Faltam profissionais: médicos, enfermeiros e fisioterapeutas preparados para tamanha gravidade. “A condição atual é muito ruim. O tempo para agir já acabou. O Paraná hoje vive uma das piores situações do País. Não adianta mais criar leitos porque não há profissionais para atender”, afirma o médico Rafael Deucher, presidente da Sotipa (Sociedade de Terapia Intensiva do Paraná).
O especialista ainda alerta que o estoque de sedativos está muito baixo e que, em Curitiba, a criação de 13 leitos, que atenderiam a demanda de três dias, foram lotados em menos de 24 horas. “A Covid-19 impõe um tratamento muito invasivo e agressivo, nem todos os profissionais são preparados. Além disso, com o volume de doentes, o desafio é dar a atenção necessária. Hoje um paciente é atendido em 80% do cuidado direto que um médico deveria dar. Ultrapassa o nosso desafio emocional”, conclui.
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