Prefeita denunciou ameaças à comissão de direitos humanos
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terça-feira, 02 de novembro de 1999
Por Gilse Guedes 
Brasília, 03 (AE) - A prefeita de Mundo Novo (MS), Dorcelina Folador, morta a tiros no último fim de semana, entregou em 1997 à Comissão de Direitos Humanos da Câmara um relatório denunciando o juiz Luiz Carlos de Souza Ataíde e o advogado Jair de Alencar, que estariam ligados ao tráfico de crianças para o exterior e ao comércio de órgãos no Mato Grosso do Sul.
Ela enviou ainda uma carta à comissão em 1996, logo após ser eleita, dizendo estar sendo ameaçada de morte pela "máfia do narcotráfico, contrabando de carro e tráfico de bebês" e denunciou o ex-prefeito Ademar Antônio da Silva por prática de corrupção.
O documento sobre a venda de crianças trata da adoção por parte de famílias italianas, alemãs, japonesas e árabes e é assinado pelo empresário Carlos Augusto Borges de Oliveira. "Também descobri que os casais de italianos e outros casais do exterior deixavam uma importância de 10 mil cruzeiros por criança", diz o relatório. Segundo o presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Nilmário Miranda (PT-MG), o empresário foi preso por causa de um processo de paternidade pelo juiz denunciado e está foragido. Miranda disse que a prefeita assumiu a defesa de Oliveira e queria que o governo federal desse proteção ao empresário.
Em um outro trecho do documento, Oliveira diz que um menino, não identificado, foi "mandado para o hospital Regional em Campo Grande para tratamento, sob orientação do doutor Jair de Alencar". "Mas esse menino voltou morto". "Eu desconfio que ele (Alencar) estava vendendo órgãos, pois o menino estava todo enfaixado, como se estivesse com o corpo totalmente vazio". O empresário denuncia que o esquema ilegal de adoção de bebês envolvia o Orfanato Cristo Rei, com o qual tinha um convênio para venda de cerâmicas produzidas por sua fábrica.
Ele cita ainda o policial e vereador Gildo Amaral (PSDB), que foi alvo de acusações da prefeita, no assassinato de presos e na venda de carros roubados vindos do Paraguai. "É o mesmo Gildo que está ameaçando e aterrorizando a prefeita Dorcelina". "O mesmo é pistoleiro da Civil e presidente da guarda mirim de Mundo Novo ", diz o documento. Miranda informou que encaminhou o caso para o Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul, que considerou improcedentes as acusações contra o magistrado.
Na carta à comissão, a prefeita insinua que o ex-prefeito tinha ligação com corrupção e trata de sucessivas ameaças de morte durante a campanha de 1996. "Minha filha de cinco anos teve de passar a campanha fora da cidade devido às ameaças de morte e estupro". Ela conta que, no primeiro comício, as instalações elétricas de sua residência foram danificadas. "Realizamos somente três comícios e no último, no dia 30 de setembro de 1996, havia pistoleiro na cidade". "A insegurança na fronteira é total depois que deixamos de ser área de segurança nacional", diz Dorcelina.


