Maria Dorcelina Folador foi atingida por seis tiros no coração e nos pulmões, quando estava sentada na varanda dos fundos de sua casa
Arquivo FolhaVítimaDorcelina, em visita a Londrina, em 97: prefeita denunciava o que chamava de ‘esquema da máfia’


Agências Estado
e Folha

A prefeita de Mundo Novo, no extremo sul de Mato Grosso do Sul, Maria Dorcelina Folador (PT), 36 anos, foi assassinada por volta de 23 horas de sábado. A polícia suspeita se tratar de uma vingança, porque a prefeita ‘‘defendia os sem-terra e incentivava a invasão de fazendas na região’’. Peritos constataram que foram disparados 8 tiros de uma arma automática 380, o mesmo calibre disparado há 20 dias contra a fachada do Terrasul (Departamento de Terras e Colonização de Mato Grosso do Sul). Dos oito tiros, seis acertaram Dorcelina, no coração e pulmões. Ela morreu na hora.
O assassinato também pode estar ligado a denúncias de crimes como tráfico de drogas e contrabando de armas na região, na fronteira com o Paraguai. Desde a campanha para a prefeitura, em 1996, Dorcelina vinha denunciando o que chamava de ‘‘esquema da máfia’’, acusando ex-prefeitos de participar de crimes como corrupção e tráfico de bebês, segundo uma assessora da prefeita, Cássia Cortês. O deputado Nilmário Miranda (PT-MG), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, também disse que a prefeita vinha sofrendo ameaças de morte desde a época da campanha e que afirmou a ele, em junho, que vivia sob permanente proteção.
O ministro da Justiça, José Carlos Dias, determinou que a Polícia Federal assuma o comando das investigações do crime, a pedido de Miranda. Na quarta-feira, o parlamentar recomendará à CPI do Narcotráfico que também passe a apurar esse caso e o crime organizado no Mato Grosso do Sul. ‘‘A ligação do crime organizado com o meio político está generalizada.’’
No momento do assassinato, a prefeita estava sentada na varanda nos fundos de sua casa, localizada no bairro Coopagril, na periferia da cidade, acompanhada do marido e uma filha. Não houve tempo de o segurança, que estava vigiando o portão da frente, alcançar o assassino. A polícia disse que o criminoso subiu no muro de uma casa abandonada, nos fundos da residência da prefeita, de onde disparou os tiros, a uma distância de aproximadamente 5 metros.
A filha Jéssica, 9, teria sido a primeira pessoa a encontrar a prefeita morta, após ouvir o barulho dos tiros. Também estava em casa, além do marido, a filha menor do casal, (de quatro anos), e o caseiro, que atuava como segurança.
Na tarde de ontem, pelo menos 10 mil sem-terra, acampados em Itaquiraí, Naviraí e Sete Quedas, se locomoviam para Mundo Novo, onde pretendem bloquear a BR-163 hoje. O movimento é um protesto contra a violência na região. Os manifestantes são coordenados pela Federação de Trabalhadores na Agricultura, CUT e MST. Já estavam na cidade, no final da tarde, cerca de 3.000 sem-terra.
A população de Mundo Novo está chocada com o assassinato da prefeita. Grupos aliados a ela preparavam um abaixo-assinado para evitar que o vice-prefeito Cléber Corrêa (PMDB) assuma o cargo, porque não tinha bom relacionamento político e pessoal com a prefeita.
Vinculação Na avaliação do presidente nacional do PT, José Dirceu, não há vinculação do crime com a participação da prefeita na luta do MST. ‘‘Há pouco tempo, o MST comandou uma ocupação de terra próximo à cidade, mas não houve nenhum conflito’’, afirmou o dirigente petista. Bandeiras do PT e do MST foram postas sobre o caixão da prefeita. O corpo de Maria Dorcelina está sendo velado no ginásio de esportes da cidade e o enterro será hoje, às 10 horas.

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