Belágua, MA, 17 (AE) - A prefeita de Belágua (MA), Rosalina Costa Araújo, afirmou hoje que foi coagida moral e fisicamente pelo delegado João Batista Campelo, atual diretor-geral da Polícia Federal (PF), para depor contra o ex-padre João Antônio de Magalhães Monteiro, em 1970. Segundo Rosalina, os policiais, na frente de Campelo, diziam que iriam a esbofetear e um deles apertou o braço dela, tentando fazê-la confessar que Monteiro era subversivo. Rosalina contou que o atual diretor da PF, assistindo a tudo, sem nada fazer, modificou todo o depoimento para comprometer o ex-padre, que acusa o delegado de o tter torturado. "Nada do que eu disse na PF estava no inquérito", afirmou a prefeita, que foi arrolada como testemunha de acusação de Monteiro.
Rosalina não gosta de falar muito sobre a prisão, ocorrida no mesmo dia que a de Monteiro. Segundo a prefeita, os policiais federais, comandados por Campelo, interceptaram o carro dela quando ía de Urbano Santos a São Luís, obrigando-a a voltar para o município, onde o ex-padre seria preso horas depois. Monteiro estava algemado, mas em nenhum momento viu os pulsos dele feridos, como diz Campelo, afirmou Rosalina. O diretor da PF disse que os ferimentos feitos em Monteiro teriam sido causados pelas algemas. "Elas estavam até frouxas", acrescenta Rosalina.
A prefeita de Belágua parece esconder algo mais grave que possa ter ocorrido no interrogatório de uma hora a que foi submetida. "Não gosto de lembrar disso", desconversa, alegando não se lembrar mais do que aconteceu. Entretanto, a filha Laura, de 27 anos, confirma que algo ainda permanece oculto. Mas, como a mãe, prefere não falar, mas chora ao se lembrar do que teria acontecido. "O delegado Campelo era um homem duro, grosseiro", afirma Rosalina, assegurando que, por algumas vezes, o delegado permitiu que os agentes gritassem com ela, tentando arrancar uma confissão.
"Eu falava não saber de nada, e eles afirmavam que, caso não contasse a verdade, seria pior", diz Rosalina. Segundo ela, o que impediu uma agressão maior por parte dos três policiais que estavam na mesma sala de Campelo era a família dela, que a aguardava no primeiro andar do prédio onde ficava a PF. Entre os parentes dela, estava o coronel Eduardo Mota, cunhado. "Se minha família não tivesse ali, talvez tenha sido agredida", diz ela.
Rosalina conta que até hoje não sabe porque foi arrolada como testemunha de acusação contra Monteiro, uma vez que não tinha ligação com o ex-padre.
Ela era tabeliã do cartório de Urbano Santos. "O delegado Campelo disse-me que, caso não falasse que Monteiro era subversivo, iria perder o meu cartório", conta Rosalina. "Só fui tomar conhecimento do que havia assinado na PF depois que o caso já estava na Justiça Militar", acrescenta a prefeita de Belágua, de 66 anos.
As afirmações de Rosalina coincidem com a conclusão tirada pelos juizes da Auditoria da 10ª Região Militar, que inocentou Monteiro por falta de provas. Segundo a sentença, proferida em outubro de 1970, dois meses depois da prisão do ex-padre, os juízes confirmaram que os depoimentos das testemunhas revelam a coação física e moral pela passaram durante a fase do inquérito. Os auditores asseguraram ainda que o inquérito havia sido feito de forma errada por Campelo.

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