Luciana Pombo
De Curitiba
Uma pesquisa realizada em Curitiba demonstra o preconceito entre os casais brasileiros na hora de adotar uma criança. Geralmente, os pretendentes querem adotar meninas brancas e com até seis meses de idade. A pesquisa foi feita pela psicóloga e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lídia Natália Dobriansky Weber, e deverá ser publicada este ano. Foram ouvidas por ela 410 pessoas com idades entre 21 e 60 anos.
De acordo com os dados da pesquisa, 58,75% dos entrevistados adotariam uma criança. Os motivos são os mais diversos, vão desde a intenção de ajudar o órfão (25,27%), até a vontade de satisfazer o desejo de ser pai/mãe (21,43%) ou de escolher o sexo da criança (14,84%).
As pessoas que alegam que nunca adotariam uma criança, justificam a posição pela falta de condições financeiras (36,45%) ou por medo de problemas futuros com a criança recém adotada (18,69%). ‘‘Filho adotivo não dá problema. Precisamos acabar com esses conceitos’’, afirma a psicóloga.
Segundo Lídia Weber, os preconceitos ainda fazem parte do dia-a-dia da população curitibana. O medo de ter problemas hereditários com os filhos adotivos está presente em 53% dos entrevistados. Vinte e cinco por cento teriam medo de adotar crianças que tivessem tido marginais como pais. A pesquisa mostrou ainda que 67,5% dos entrevistados acreditam que conhecer a história da família da criança é fundamental antes da adoção.
As crianças portadoras de deficiência sofrem dificuldade para atrair a atenção dos possíveis pais adotivos. De acordo com a pesquisa, apenas 25% dos entrevistados disseram que adotariam crianças com algum tipo de deficiência (física ou mental). Outra dificuldade é a intenção do casal em escolher a criança que desejam adotar pelas características da própria família. Dos entrevistados pela pesquisa, 72% pensam que os pais devem escolher as crianças que poderão ser adotadas.
Outra pesquisa realizada dentro da Vara da Infância e Juventude de Curitiba demonstra que o perfil das pessoas habilitadas para adoção na cidade segue um parâmetro. A maioria absoluta era casada (88%), da cor branca (95,24%), católica (76,19%), com idade média entre 35 e 40 anos (33,33%), curso superior completo (71,43%) e renda familiar superior a três salários mínimos (92,86%). ‘‘O problema é que a própria equipe técnica que faz a análise dos casais é preconceituosa e seleciona muito os pretendentes. Muitas vezes, isso pode ser prejudicial’’, explica Lídia.
A maioria das crianças adotadas era fisicamente saudável (78%), com idade máxima de seis meses (45%), branca (66,67%) e meninas (26,19%). De acordo com Lídia Weber, a adoção de crianças por casais brasileiros pode ser feita na Vara da Infância e Juventude e o processo é absolutamente gratuito. ‘‘A idade mínima para adotar é de 21 anos e o candidato tem que ter 16 anos de diferença com o filho’’, contou ela. A psicóloga afirma que não é a favor de uma indústria de adoção, apenas para diminuir o número de crianças abandonadas em instituições e albergues. Em São Paulo, de acordo com ela, a cada três dias é encontrada uma criança na rua.
Entre os exemplos citados por Lídia de adoções que deram certo estão a do cantor Milton Nascimento (que foi adotado por uma família branca), do empresário Sílvio Santos (que tem um filho adotivo) e do ator norte-americano Tom Cruise (que tem dois filhos adotivos).Trabalho feito por psicóloga da UFPR mostra que casais temem, inclusive, problemas hereditários com os filhos adotivos
Mauro FrassonO outro ladoA descendente de alemã Hiromi Kern, quatro filhos, adotou André há 21 anos: ‘‘O André estava muito doente’’

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