SÃO FRANCISCO, EUA (AE-AP) - Fred Lau sempre quis ser um policial em São Francisco, tanto que literalmente colocou-se de cabeça para baixo na esperança de conseguir o emprego. Em 1970, havia a exigência mínima de 1 metro 65 centímetros para que alguém pudesse tornar-se um policial, mas Lau era uma polegada mais baixo do que o exigido. Ele tentou, então, esticar seu corpo pendurando-se de ponta-cabeça numa barra, mas não conseguiu o efeito desejado.
O que realmente surtiu efeito foi a pressão de ativistas pelos direitos civis. A exigência de altura mínima foi derrubada em 1971 e Lau tornou-se o quinto oficial de origem asiática do departamento. Hoje, ele é chefe de polícia e sua ascensão reflete, em diversos aspectos, um século de mudanças para os americanos descendentes de chineses nos EUA.
Atualmente, os americanos de origem chinesa apresentam os mais elevados níveis de educação e de renda entre os grupos étnicos nos EUA, o que faz com que alguns os chamem de "minoria modelo". Mas o sentimento anti-chinês nos EUA, que remete à época em que as fronteiras norte-americanas estavam sendo demarcadas, permanece vivo de acordo com muitas pessoas que fazem parte desta fatia da população. "As pessoas sempre acham graça do meu sotaque", disse Kenny Su, de 49 anos, natural de Hong Kong que vive nos EUA há anos. "Eles não fazem uma boa imagem dos chineses", completa. Escândalos recentes têm piorado a situação. Alguns descendentes de chineses temem que alegações de espionagem chinesa em laboratórios de armas nucleares e de contribuições ilegais chinesas para campanhas políticas nos EUA prejudiquem seus avanços.
Senador Richard Shelby, um republicano do Alabama, refere-se ao "povo astucioso" quando fala sobre escândalos de espionagem. Algumas caricaturas têm mostrado asiáticos de dentes salientes com óculos de lentes grossas. O editorial de um jornal evocou a imagem de Fu Manchu, personagem astuto, de bigode e olhos puxados das novelas de o Sax Rohmer, que se tornou o estereótipo do homem ocidental. "Isto apenas demonstra um lado da questão. Boa parte do problema não é revelado", disse Victor Hsi, vice presidente da Organização dos Chineses Americanos, um grupo de direitos civis localizado na capital Washington.
Os primeiros asiáticos a chegarem nos EUA eram, em sua maioria, mineradores que chegaram a Sâo Francisco durante a corrida do ouro. Por serem estrangeiros, eram vistos como uma ameaça econômica.
Uma taxa de US$ 2,50 mensal por cada chinês habitante da Califórnia foi instituída em 1862 para "proteger o livre trabalho branco". Vinte anos mais tarde, o Ato de Exclusão Chinês barrou a entrada de destes trabalhadores no país.
"A estratégia foi declarar estes imigrantes asiáticos como pessoas que não se adaptariam ao novo meio e tratá-los como estranhos. Muito deste sentimento permanece conosco até hoje", declara Ling-chi Wang, diretor do Departamento de Estudos Étnicos da Universidade da Califórnia em Berkeley. Durante anos, diversas leis foram criadas para impedir que asiáticos comprassem terras, conseguissem cidadania norte-americana e se casassem com brancos. Dúvidas sobre o patriotismo dos descendentes de japoneses levou ao confinamento destas pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.
Nacionalmente, os americanos de origem asiática somam 10,1 milhões, ou seja, 3,8% da população. E sua influência e presença estão aumentando. Mais de 40% dos estudantes da Universidade da Califórnia são descendentes de asiáticos. Situação muito diferente do início do século, quando ninguém alugava imóveis para os primeiros estudantes de origem chinesa em Berkeley.
No Vale do Silício, um quarto dos negócios de alta tecnologia são administrados por empreendedores asiáticos. Com esses números, a imagem de uma minoria modelo parece cada vez mais real. "Dificilmente um candidato com sobrenome chinês terá seu pedido de emprego jogado no lixo como acontecia há 30 anos", diz Diane Chin, diretora-executiva da Ação Afirmativa Chinesa. "Mas há muitas barreiras a serem transpostas". Umas dessas barreiras, dizem os americanos de origem chinesa, é a percepção de que eles têm habilidade para as áreas técnicas, mas não para chegar a cargos gerenciais. Um estudo da Boyden Global Executive Search de Washington D.C. mostrou que os americanos de origem asiática ocupam apenas 1% dos postos nos conselhos dentre as 1000 maiores companhias públicas nos EUA. O chefe de polícia Lau conseguiu quebrar outro tabu. Ele é o único descendente de chineses a liderar o departamento de polícia de uma grande cidade.

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