''A pessoa 'normal' não entende a gente, olha como se fosse um 'bicho de sete cabeças''. A frase é do jovem Franklin Silva Elias, de 19 anos, que faz tratamento para psicose. Ao mesmo tempo que ele faz alusão ao filme ''Bicho de Sete Cabeças'', que trata sobre a experiência de um jovem internado em um hospital psiquiátrico, também expressa a realidade com a qual os doentes mentais tem que lutar - o preconceito. No próximo dia 18, comemora-se o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, outra das ''batalhas'' do paciente com doença mental.
A psiquiatra Maria Angélica Gambarini, que atende no Centro de Atendimento Psicossocial (Caps), em Londrina, acredita que é preciso enfocar o tratamento da doença mental por duas vertentes. A primeira, cuidando das pessoas que estão adoecendo para que a doença não fique crônica. ''Nesse sentido é extremamente importante atender precocemente e dar um encaminhamento, mais intensivo na fase aguda, mas que não seja a internação. Isso evita tornar a pessoa improdutiva e que ela se aposente precocemente'', avalia. Ela ressalta que hoje a orientação é afastar o paciente o mínimo possível das suas atividades, e que ele possa executá-las sem interromper o tratamento.
A segunda vertente - mais difícil - é tentar recuperar o paciente que já teve outros tipos de encaminhamento e que a própria família não enxerga outras possibilidades que não seja a internação. ''Às vezes você tem que insistir com a família para não internar o paciente'', revela.
É considerada doença mental, segundo a médica, qualquer nível de alteração do sistema nervoso central, que não tenha lesão neurológica, mas que cause mudanças de comportamento, de humor ou de raciocínio, que vão influenciar a convivência com outras pessoas e consigo mesmo. Esse tipo de doença implica em desorganização da química do sistema nervoso central e podem haver diferentes níveis de manifestação, do leve ao grave. ''Tanto pode ser uma depressão extramente grave, quanto uma esquizofrenia leve'', afirma.
A psiquiatra explica que é possível ao paciente com doença mental ter uma vida ativa ''desde que bem tratado''. Ela alerta que como a doença mental é estigmatizada, muitos pacientes interrompem o tratamento quando estão bem, ''quando passou aquela fase de sofrimento intenso''. Mas, isso causa um outro tipo de problema - quando o tratamento é retomado, a recuperação é mais lenta.
Ela lembra que a doença mental não aparece de repente no indivíduo, mas é resultado do acúmulo de eventos ao longo da vida. É causada por uma herança genética, mas seu desenvolvimento ou não, e até a intensidade, vai depender do nível de estímulo a que cada pessoa é exposta.
Alguns sinais indicam a hora de procurar avaliação médica: desconforto emocional, alteração do sono (insônia ou passar a dormir demais), comportamento que foge dos padrões (sempre muito angustiado ou não satisfeito em lugar nenhum), intolerância na convivência com as pessoas, sensação de há alguém falando no ouvido ou de que está sendo perseguido. ''O mais importante é perder o preconceito, porque a doença não afeta só a pessoa, mas seu ambiente social, familiar, de trabalho'', afirma.
Não é à toa que Franklin, o paciente citado no início dessa matéria, também afirma: ''A gente é pessoa normal, tem que entender que isso (a doença) é uma fase da vida''.

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