Preconceito dificulta prevenção do câncer
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sexta-feira, 08 de setembro de 2000
Lígia Formenti Agência Estado De São Paulo 
Doença que figura entre as quatro primeiras causas de mortes no Brasil, o câncer ainda é cercado por muito preconceito e desinformação. Isso, garantem os especialistas, ocorre não só entre a população em geral, mas também entre médicos, que muitas vezes demoram em acertar o diagnóstico e até atrasam o tratamento, por achar que o problema é insolúvel.
Por isso, o País deverá assistir a partir de outubro a uma campanha preventiva inédita. A iniciativa é do Hospital do Câncer, que pretende contar com apoio financeiro de vários segmentos da sociedade e realizar um trabalho de esclarecimento contínuo até o fim de 2001. A idéia é dividir a campanha em blocos, para abordar temas específicos. O hospital quer combater a falta de informação com todos os meios disponíveis: rádio, TV, mídia impressa e eletrônica.
O primeiro passo é mostrar à população que a doença tem cura, afirma o diretor clínico do Hospital do Câncer, Daniel Deheinzelin. Convicto de que o medo do diagnóstico da doença afasta os pacientes dos consultórios, o médico acrescenta: É uma pena porque, quanto mais tarde o problema é detectado, menores são as chances de o doente se beneficiar com as novas formas de tratamento.
A relação entre diagnóstico precoce e o bom resultado da terapia fica clara quando se comparam números brasileiros e norte-americanos. Nos Estados Unidos, a relação entre o número de novos casos da doença para o número de mortes é de 22%. No Brasil, esse índice sobre para 40%.
Os médicos não arriscam dizer qual é o índice de cura dos pacientes. Tudo depende do tipo de câncer, do estágio em que a doença é diagnosticada e do tratamento que é usado. São mais de cem tipos de câncer e cada um apresenta características diferentes, explica Deheinzelin.
Mas os avanços conquistados na área impressionam. Para o diretor do Hospital do Câncer, não há como atribuir o sucesso da terapia a apenas um fator. Não adianta esperar uma droga mágica: o progresso no tratamento é obtido com as conquistas em várias áreas: de diagnóstico, de tratamento clínico e cirúrgico.
Deheinzelin lembra que em centros mais modernos a doença é tratada por uma equipe multidisciplinar. É por isso que em grandes hospitais hoje existem centros para o tratamento desses pacientes. Além do diagnóstico precoce, a eficácia no combate à doença depende de técnicas cirúrgicas adequadas, remédios seguros e com menos efeitos colaterais, dos avanços da radioterapia e da forma como tudo isso é empregado. Mas não é só. O sucesso depende ainda do acompanhamento dado ao doente: tratamento de problemas correlatos, auxílio de profissionais como nutricionistas, fonoaudiólogos ou psicólogos.
É essa nova visão da doença que permite um prognóstico melhor, explica o médico. Além de mostrar que a doença tem cura, a campanha pretende divulgar formas de prevenção dos tipos mais comuns de câncer e quando recorrer a um médico especializado. Precisamos mudar a mentalidade da população e dos profissionais em relação à doença, afirma. Certamente com isso vamos poder trazer mais pacientes aos consultórios, para realizar exames de detecção precoce e, assim, teremos chances de oferecer a eles o melhor tratamento hoje disponível.
Os avanços não são poucos. Às vezes, pequenas mudanças já trazem muitos resultados, afirma o oncologista René Gansl, do Hospital Albert Einstein, que, com a proctologista Angelita Gama, realizou um estudo mostrando que, no tratamento do câncer de reto, melhores resultados são obtidos quando a radioterapia é feita antes da cirurgia. A operação é menos traumática e o prognóstico, melhor, diz. É uma alteração simples, mas na qual ninguém havia pensado antes.


