São Paulo, 25 (AE) - O temor de arcar com um custo alto de produção, ampliado pelo dólar em torno de R$ 1,80, e depois ter de vender o produto barato, no início do segundo semestre, quando espera-se que o câmbio esteja em torno de R$ 1,65, é um dos fatores que está fazendo com que os triticultores reduzam sua intenção de plantio no Paraná.
Outro fator é o preço mínimo, aprovado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de R$ 185 por tonelada, ser menor que o custo de produção do setor, estimado em R$ 215.
Esta retração na intenção de plantio de trigo no Paraná, divulgada hoje pelo Departamento de Economia Rural da Secretaria de Agricultura do Paraná (Deral), pode não concretizar o objetivo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de registrar em 1999 uma produção de 3,1 milhões de toneladas.
Segundo Flávio Turra, técnico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), o recuo na intenção de plantio do trigo pode ser sentido nas cooperativas paranaenses. Turra afirma que os triticultores perderam o otimismo inicial provocado pela desvalorização do real quando os custos de produção também subiram.
Segundo ele, entre janeiro e fevereiro, os custos dos triticultores com inseticidas subiram 46,7%, fungicidas em 39,8%
herbicidas em 47,5% e fertilizantes registraram uma alta de 24 6%. Enquanto isto, o preço mínimo proposto pelo governo para esta safra é apenas 17,8% maior que a do ano passado. "Os triticultores irão plantar com um dólar alto e depois vender com um câmbio menor, o que deverá depreciar os preços", disse.
Segundo Jairo Faccio, presidente da JF Corretora, o governo já tinha um estudo, no final do ano passado, antes da desvalorização do real, de que o custo de produção do trigo era de R$ 175 por tonelada. "Isto com um câmbio de R$ 1,21", afirma.
"Oferecer ao produtor um preço mínimo de apenas R$ 185 por tonelada quando o câmbio se desvalorizou mais de 60% é um sinal de desgoverno, de ausência de política agrícola, de um ministério fraco e incompetente para tomar con ta da agricultura nacional", disse.
Custos - O preço mínimo do trigo que cobre o custo de produção, hoje, é o de R$ 215 por tonelada, segundo Flávio Turra
técnico da Ocepar. Segundo ele, este valor é mais condizente com os custos de produção depois da alta dos insumos agrícolas, a maioria deles com componentes importados. Turra diz que este preço ainda não contabiliza a próxima alta dos combustíveis já anunciada pelo governo.
O preço do mínimo de R$ 185, aprovado hoje pelo CMN, é equivalente a US$ 98 enquanto o preço mínimo anterior, de R$ 157
atingia US$ 130. "É claro que este mínimo menor que o custo de produção também está influenciando a decisão do produtor de não plantar trigo no Paraná e migrar para o milho safrinha."
Segundo Faccio, da JF Corretores, o trigo é uma cultura que precisa de grande quantidade de insumos e, com a alta do custo de produção, o produtor vai migrar para o milho safrinha ou vai plantar trigo sem a aplicação de tecnologia. "O resultado deste desgoverno agrícola será uma área menor com trigo menor que a do ano passado e sem uso de tecnologia.
O trigo desta safra será de baixa qualidade", disse ele.
Turra, da Ocepar, informou também que, apesar dos temores de que haveria falta de semente para o plantio, o atual ânimo dos triticultores deve levar a uma sobra de sementes. "Existe muita reserva de sementes nas cooperativas mas ninguém está comprando", disse.
No início de março, foi registrado até um aumento nos preços da saca de semente para R$ 23 a saca. Hoje os preços recuaram. Segundo Faccio, no Rio Grande do Sul, a saca de semente é ofertada a R$ 15 mas as vendas são poucas.
Segundo Turra, com o atual cenário, as sementes disponíveis no Paraná, um volume em torno de 2,33 milhões de sacas, deverão ser suficientes para o plantio do Paraná. "Ao contrário do esperado anteriormente, não haverá necessidade de utilizar sementes de qualidade inferior nem de importar sementes do Rio Grande do Sul", disse.
Faccio disse que, no Rio Grande do Sul, existem cerca de 50 mil toneladas de sementes que deveriam ser exportadas para o Paraná e para o Mato Grosso. "Agora, acredito que as sementes acabarão sendo vendidas paraa indústria moageira."

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