São Paulo, 20 (AE) - A redução de impostos nos carros trouxe pouca vantagem para o consumidor. O mercado de hoje, depois de duas semanas de vendas com carga tributária menor, comprova que a queda serviu apenas para compensar os aumentos de preços de janeiro. Além disso, com a reação do mercado, os concessionários reduziram os descontos, da média de 6% para 3%. "A média de preços de hoje é 0,5% menor que a de dezembro", atesta Hugo Maia, presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos (Fenabrave), que representa os mais de 5 mil concessionários do País. Se para o presidente da Fenabrave comprar hoje um carro a preços um pouco mais baixos que os de dezembro representa um bom negócio - visto que em relação a janeiro a queda é de 11% em média, em São Paulo - muitos consumidores têm se frustrado. O poder de compra hoje é mais baixo do que o de janeiro levando em conta a taxa inflacionária.
A Fenabrave colocou uma linha de discagem gratuita - 0800-551967, atendendo a uma exigência do próprio acordo emergencial, que reduziu os impostos. Mas não há como reclamar que o preço de mercado de um carro hoje é 11% menor do que há um mês somente na tabela. Hugo Maia, que atendeu ao telefonema de uma consumidora que questionou isso, lembrou a ela que as liquidações em lojas também têm prazo de duração.
Há hoje no mercado uma tendência de redução de descontos porque as vendas aumentaram como consequência de um represamento de demanda em duas frentes: de um lado, os consumidores que aguardavam a queda dos impostos para comprar e de outro os que estão antecipando a compra com receio de que o acordo emergencial, que tem prazo de 60 dias, não seja renovado. O governo já avisou que não renovará os benefícios se o aumento de vendas não compensar a renúncia fiscal.
O que aconteceu de fato é que os preços dos automóveis subiram muito - até mais de 15% em alguns casos - em janeiro. O aumento foi resultado de uma série de reajustes, que se seguiram sucessivamente, sob argumento das montadoras de que havia necessidade de repassar elevação de IPI, de Cofins, do dólar e até da inclusão de itens de segurança exigidos pelo novo Código de Trânsito, como espelhos retrovisores do lado direito e kit de primeiros socorros. Mercado - O mercado então, parou, fazendo as vendas caírem de 105 mil para 93 mil veículos em janeiro e 42 mil em fevereiro.
Os concessionários elevaram os descontos. Mas não havia reação, principalmente depois que o consumidor ficou sabendo que os preços iriam cair por conta da redução de impostos.
Um Ford Ka 1.0, mais simples, que custava em torno de R$ 11,5 mil, chegou ao pico de R$ 13 mil com os aumentos de preços de janeiro. Hoje, na tabela, o veículo custa pouco mais de R$ 11 mil em São Paulo, que reduziu o ICMS. Um Palio EX entrou no ano tabelado a R$ 12.200. Subiu para R$ 12.900. Agora o valor na tabela é R$ 11.397. O Gol Special teve o valor ainda mais reduzido: havia subido de R$ 12.777 para R$ 13.072 e caiu agora para R$ 11.524.
O diretor de assuntos corporativos da Ford, Célio Batalha, também vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) diz que março e abril serão os melhores meses do ano para a indústria justamente em razão desse represamento. Os números que ele espera são modestos - venda de 90 mil veículos em março e nada além de 100 mil em abril. "Temos que manter o pé no chão", afirma Batalha.
O executivo da Ford lembra que o quadro é desfavorável a um aumento de vendas. "Em outubro, quando vendemos 80 mil unidades já tínhamos o reflexo da crise da Rússia, mas não tínhamos ainda os efeitos do aumento do dólar", destaca. "É difícil supor que a demanda pode voltar aos níveis de 132 mil veículos de agosto ou mesmo as 111 mil de abril", completa. Velhos consumidores - O presidente da Fenabrave concorda que o consumidor de hoje é o mesmo do final do ano passado. Ou seja, o acordo emergencial não trouxe e não trará novos consumidores, ao contrário das câmaras setoriais e mesmo a criação do carro popular, que trouxeram para o mercado de carros zero-quilômetro novos consumidores, que antes só compravam veículos de segunda mão. "Não existe nenhuma bolha de consumo", frisa Hugo Maia.
Para ele, as vendas de março e de abril ficarão em 110 mil carros. E se o acordo emergencial não for renovado, ao final de abril, haverá uma queda para 80 mil a 85 mil unidades. Célio Batalha sugere até que o acordo emergencial seja mantido mesmo depois da criação do programa de renovação de frota. Ele sustenta que os detalhes da renovação da frota, que tirará das ruas carros com mais de 15 anos, vão levar tempo para serem concluídos.

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