Roma, 15 (AE) - O Brasil poderá boicotar a reunião de Seattle, nos Estados Unidos, no fim de novembro, que iniciará as negociações da Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio (OMC), se os países europeus não aceitarem discutir a abertura dos mercados agropecuários. Essa possibilidade foi admitida hoje pelo ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes. "Podemos chegar a este ponto", disse. "Mas ainda não existe uma decisão de governo".
Ele acredita que os países que integram o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e os países que fazem parte do grupo de Cairns (Austrália, Nova Zelândia, áfrica do Sul, Canadá, Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Panamá, Venezuela, Guatemala e Costa Rica), que são exportadores de alimentos, reagirão com rigor contra o protecionismo europeu aos seus produtores agrícolas. "O boicote poderá envolver um grande número de países", disse Pratini. "Mesmo que não seja um boicote explícito".
O Brasil luta agora, nos organismos internacionais multilaterais, contra o conceito da "multifuncionalidade", que foi criado pelos europeus para analisar as questões comerciais relacionada com produtos agropecuários. Segundo o conceito de multifuncionalidade, a atividade agrícola deve ser analisada do ponto de vista da preservação das florestas, do meio ambiente e da qualidade de vida das populações.
O governo brasileiro concorda com esse conceito mas não aceita que ele seja utilizado como justificativa para a concessão de subsídios ou a adoção de práticas desleais de comércio. Em seu discurso na 30ª sessão da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que está sendo realizada em Roma, Pratini de Moraes disse que "o Brasil não pode aceitar, sob as mais diversas ou aparentemente sofisticadas racionalizações, como a multifuncionalidade, que alguns países desenvolvidos sigam mantendo práticas injustificáveis e desmesurado apoio interno, enormes subsídios às exportações e manutenção de elevados níveis de proteção de seus mercados".
Durante os trabalhos técnicos da 30ª sessão da FAO estimou-se que os subsídios diretos concedidos pela União Européia a seus agricultores e pecuaristas chegam a US$ 60 bilhões por ano e que os subsídios indiretos estão entre US$ 180 bilhões e US$ 200 bilhões. "O total dos subsídios pode chegar a US$ 260 bilhões", disse Pratini de Moraes.
Para exemplificar o desmedido protecionismo da União Européia, Pratini de Moraes citou o caso dos produtores europeus de açúcar que recebem subsídios equivalentes a US$ 500 por tonelada do produto, enquanto o preço no mercado internacional é atualmente de US$ 160 por tonelada. "Quando asssumi o ministério o preço do açúcar estava em US$ 100", disse o ministro. Para ele, situações como essa não são mais sustentáveis e não é mais possível que os europeus continuem com essas práticas que prejudicam os países produtores de alimentos.
Pratini de Moraes disse que a ampla liberalização do comércio internacional no setor agrícola impõe-se como um objetivo estratégico para o Brasil, pois o País estabeleceu o objetivo de atingir US$ 100 bilhões em exportações no início da próxima década. Para que essa meta seja alcançada, o ministro estima que o agronegócio deverá garantir receitas de exportações de US$ 45 bilhões.
Peste - Em encontro com representantes do governo italiano, o ministro Pratini de Moraes discutiu o fim do bloqueio da União Européia à importação de carne suína do Brasil
que foi decretado em 1978. O ministro acredita que até o final de janeiro esse bloqueio será suspenso, com a ida ao Brasil de uma missão européia que vai fazer o reconhecimento da eliminação da peste suína clássica nos Estados do Paraná e Santa Catarina. O governo brasileiro tem grande interesse no mercado da Itália, que consome 800 mil toneladas de carne suína por ano.

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