Atividade física é sempre bom? É com essa pergunta que o pediatra e médico do esporte Ricardo Barros, do Rio de Janeiro, provoca a reflexão. Coordenador do grupo técnico de medicina esportiva da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), ele esteve em Londrina na última semana ministrando um dos módulos do curso de especialização em pediatria, uma parceria entre a SBP, o HU-TEC e a Associação Médica de Londrina (AML). E fez um alerta: ''Os pais são os maiores responsáveis por colocar crianças precocemente no esporte''.
O grande erro, segundo ele, é querer exigir competitividade ou desempenho das crianças antes dos seis anos de idade. Nesse período, afirma Barros, as atividades devem ser só de recreação. ''O que temos visto são bebês de seis meses na natação, e crianças de três anos no balé. Eu até concordo que elas possam fazer essas atividades, mas só como recreação, não se pode exigir desempenho'', avalia. A educação física escolar, segundo o médico, também é uma atividade recreativa.
Antes dos seis anos, as crianças não têm habilidades específicas para o esporte - coordenação motora, atenção seletiva e memória, fundamentais para aprender movimentos e repeti-los quando necessário. Um bebê, por exemplo, não sabe pegar uma bola que é arremessada em sua direção e lançá-la de volta. ''A natação antes dos seis anos não vai fazer com que a criança sobreviva na piscina, e é comprovado por pesquisas que antes de um ano de idade não há benefício em relação à asma'', ressalta.
Antes que o filho comece qualquer esporte, a atenção deve ser para a qualificação dos professores e as instalações físicas onde a prática será desenvolvida. A escolha da modalidade esportiva, aponta o médico, deve ser da criança, não dos pais. ''Ouço todos os dias pais falando que o filho fez dois meses de judô, ou outra coisa, e parou. O melhor é não impor'', recomenda.
Ele acredita ainda que a criança tem o direito, se não gosta, de não fazer esportes. ''Claro que não é ideal, mas é um direito que tem que ser respeitado'', afirma, ressaltando que se for o caso de uma criança obesa, é preciso uma reavaliação. E provoca os pais: ''Não precisam ser atletas, mas devem dar o exemplo''.
Os pais devem ficar atentos a alguns sinais que mostram o descontentamento com o esporte: o primeiro ponto é não querer ir mais, e depois começar a brigar e a não aceitar as ordens dos professores. ''Isso mostra que ela está insatisfeita, e qualquer motivo é o bastante para não ir à aula'', avalia.
A partir dos seis anos, as crianças podem começar nas ''escolinhas'' de futebol, natação, salto, etc (veja quadro). A partir dos 10 anos, podem praticar os esportes de velocidade, basquete, voleibol, futebol. A musculação pode ser feita a partir dos oito anos, com uma ressalva: só pode ser feita sob supervisão. ''Teria que ser um treinador exclusivo para aquela criança, o que acaba tornando a prática inviável'', afirma.
Quando feito de maneira adequada e na idade ideal, o esporte traz muitos benefícios: sociabilidade, aprendizado de limites, aprendizado para lidar com vitórias e frustrações, desenvolvimento de lideranças, aumento da coordenação motora, fuga da rotina e dos jogos de computador e da Internet, além de ajudar a evitar sobrepeso e doenças crônicas como diabetes, hipertensão arterial, colesterol alto e obesidade.

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