Praias, drogas e bailes funk unem jovens do asfalto e da favela no Rio
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sexta-feira, 10 de setembro de 1999
Por Clarissa Thomé 
Rio, 11 (AE) - A praia, o funk, o tráfico e até a geografia conspiram para a convivência entre a juventude das favelas do Rio e a do asfalto. A ida constante aos morros em busca de drogas, bailes funk e pagode, e esportes como o surfe levam adolescentes da classe média a falar as gírias dos meninos das 14 favelas da zona sul e a ouvir as mesmas músicas.
A relação foi descrita pela psicóloga do Centro de Estudos, Prevenção e Reabilitação do Alcoolismo da Universidade Federal do Rio Carla Mourão na tese de mestrado Uma Droga de Cultura - Representação das Drogas dos Anos 60 aos 90. "A troca de experiências ocorre muito em razão da droga; é um motivo nefasto, mas ainda é motivo de socialização."
A socióloga Alba Zaluar, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lembra que o encontro do asfalto e do morro, no Rio, vem do início do século. Nos anos 20 e 30, o compositor Noel Rosa, de classe média, era um dos melhores amigos de Cartola, adolescente do Morro da Mangueira.
Quarenta anos mais tarde, Nara Leão vivia em rodas de samba nas favelas. E, no início da carreira, lançou um disco com músicas de sambistas dos morros. Nessa época, o bar Zicartola, do casal mangueirense Dona Zica e Cartola, no centro, inaugurava nova tendência. Atraía a juventude da zona sul ávida pelas rodas de samba e por experimentar o feijão da Dona Zica, sem subir morros.
"A música popular era feita no morro, havia interesse das classes mais abastadas nessa cultura", diz Alba. "Em São Paulo isso não ocorre porque as favelas não guardam as tradições da cultura negra."
Hoje, talvez Nara fosse recebida com desconfiança nas favelas às quais costumava ir. "A amizade é superficial; as patricinhas vêm, mas não falam com a gente", diz Elaine dos Santos, de 17 anos, moradora do Morro do Cantagalo e frequentadora do calçadão de Ipanema.
Roberta de Oliveira, de 19 anos, costuma encontrar-se com adolescentes da classe média no Leblon. "De biquíni, todo mundo é igual." Ela mora na Cruzada São Sebastião, favela com dez prédios, e queixa-se de ser discriminada pelas maria-fuzil. "Só no baile, chapadas de maconha e cachaça, elas falam com a gente", diz. "São funkeirinhas do asfalto que vão a baile pegar homem e arrumar confusão; elas se garantem no namorado, muitas vezes o chefe do tráfico", descreveu W., morador de morro, em depoimento a Carla.
Para Rodrigo e Marcos, ambos de 18 anos, e Fabiano e Tiago, os dois de 15, amizade com moradores da favela é questão de sobrevivência. Depois que começaram a subir o morro, há dois anos, eles não foram mais assaltados. "O negócio é desenrolar (conversar), falar onde você mora, quem você conhece", diz Fabiano.
Garotos da classe média alta do Flamengo - um deles é filho de juiz, outro, sobrinho de policial federal -, os três deram entrevista com a condição de ter os nomes trocados. Eles dizem que, no morro, "só trabalha na boca-de-fumo quem quer" e garantem que os adolescentes com os quais convivem são como os colegas da escola. "Só que não vou levar nenhum em casa, porque eles podem passar para o lado do tráfico da noite para o dia", explica Rodrigo.
Coisa da idade - O advogado J.T., de 23 anos, afirma que o flerte com o tráfico é coisa da idade. Ele começou a fumar maconha aos 16 anos. Com 17, subia o morro para comprar drogas e revender. J. foi preso em flagrante três vezes, mas subornou os policiais militares. "Consegue-se a droga no asfalto, mas eu gostava do risco."
O esporte é outro fator que aproxima jovens da favela e de classe média. O estudante Manuel de Mello Franco Bandeira de Freitas, de 18 anos, de Ipanema, começou a ter contato com moradores do morro quando fez o curso do Corpo de Bombeiros para auxiliar de salva-vidas, no verão de 1990. "A gente surfa junto
fica amigo", diz. "A praia socializa todo mundo: pobre, rico, bêbado, mendigo."
Freitas treina boxe na academia Arte Nobre, no Morro do Cantagalo, criada há dez anos pelo treinador Cláudio Coelho. Lá ele convive com moradores dos Morros Pavão-Pavãozinho, Cantagalo e Rocinha, que têm aulas de graça - a turma do asfalto paga R$ 60,00 por mês. "Quem vem lá de baixo, vem com recomendação; se chegar cheio de marra (arrogante), nem passa da porta."
Há casos em que a convivência asfalto-favela acaba no altar. O escritor Ruy Castro, morador do Leblon, diz ter notado um certo aumento de "casais mistos". "Mas não dá para saber ao certo se os negros são moradores do morro."
A vista para o morro, que tanto assusta a classe média, foi o ponto de partida para o namoro de Cristiane Lopes da Rocha
então com 14 anos, e o surfista Vanderlei Paiva Gonçalves, o Berzó, que tinha 27. Cristiane morava em Ipanema, diante do Cantagalo. Berzó ajudava um amigo a construir seu barraco quando viu a garota na janela. Trocaram acenos e dali mesmo marcaram um encontro. Namoraram quatro meses e terminaram porque Berzó ainda estava se separando da primeira mulher.
Cinco anos mais tarde, retomaram o namoro e casaram-se em 1997. "Cheguei a morar no morro de sexta-feira a domingo", conta Cristiane. Hoje, o casal dirige o Surfavela, programa apoiado pelo Comunidade Solidária, e mora num pequeno apartamento em Ipanema - com vista para o morro, é claro.


