Praga do Egito
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 2003
Percival de Souza 
Não sei porque insistem em dizer que as pragas do Egito foram sete. Na verdade, dez pragas, relatadas na Bíblia (Êxodo), mostram o momento em que Faraó insistia em sugar o sangue do povo e não libertá-lo da escravidão. As pragas foram sendo despejadas por Moisés, uma a uma, para fazê-lo recuar. Agora, a Polícia Federal (PF), desencadeando a Operação ''Praga do Egito'', enfiou no xadrez o ex-governador de Roraima Neudo Campos, cumprindo o mais destacado entre 57 mandados de prisão expedidos pela Justiça Federal. Porque Neudo (PP) comandava um esquema chamado de ''gafanhotos'', ou seja, uma praga infestando o erário através de cerca de 5.500 empregados fantasmas, que não trabalhavam, mas recebiam todo mês. Segundo a PF, os prejuízos aos cofres públicos, já calculados em R$ 320 milhões, podem chegar a R$ 1 bilhão.
Os gafanhotos foram a oitava praga do Egito. Entre nós, uma metáfora permite deduzir o estrago que eles fazem, tirando da população benefícios que poderiam ser adquiridos com o dinheiro desviado. Vorazes e insaciáveis, os gafanhotos da praga egípcia e os gafanhotos da praga moral que insiste em envolver o País em nefando manto, são destruidores implacáveis da ética, da moral e da cidadania. O gafanhoto-chefe ainda pretendia ser processado em fôro privilegiado, mas ainda bem o Superior Tribunal de Justiça disse não, juridicamente: proteger o exercício do cargo é uma coisa; afagar quem ocupa cargo, ou já ocupou, é outra, completamente diferente.
É preciso prestar atenção nas pragas. Na primeira delas, as águas tornaram-se sangue. Na última quinta-feira, um bando de policiais militares do Rio de Janeiro (um oficial e dez praças), foi preso sob a acusação de matar uma testemunha que tinha ido dois dias antes à Corregedoria da PM denunciá-los por torturas e extorsões. Pagou com a vida o que os policiais consideraram atrevimento. O comandante do Batalhão deles falou em ''processar'' (?) jornalistas que fizessem imagens dos acusados. Ou seja: confundiu tropa com bando. É incompatível. Foi, como não poderia deixar de ser, exonerado do cargo.
O fato é apenas mais um entre alguns dos que foram captados pela observadora da ONU, Asma Jahangir, que esteve no Brasil e trouxe à tona tudo isso que a gente conhece de cor e salteado. Só que algumas das nossas mais expressivas autoridades preferiram atacar a representante da ONU em vez de tomar providências. Aliás, ainda nos últimos dias a promotora pública Rosemary Souto Maior Almeida, de Itambé (PE), denunciou que está recebendo ameaças de pistoleiros do crime organizado na região, fronteira com a Paraíba. Querem matá-la. ''Deus sabe até quando vou aguentar. Não quero morrer''. Os inertes do Planalto falam numa burocrática reunião para tratar do assunto, o mesmo que levou à morte, no ano passado em Belo Horizonte, o promotor Francisco José Lins do Rego, que investigava a máfia dos combustíveis. A nona praga egípcia foi a das trevas. Até quando continuaremos mergulhados nelas?


