Não sei porque insistem em dizer que as pragas do Egito foram sete. Na verdade, dez pragas, relatadas na Bíblia (Êxodo), mostram o momento em que Faraó insistia em sugar o sangue do povo e não libertá-lo da escravidão. As pragas foram sendo despejadas por Moisés, uma a uma, para fazê-lo recuar. Agora, a Polícia Federal (PF), desencadeando a Operação ''Praga do Egito'', enfiou no xadrez o ex-governador de Roraima Neudo Campos, cumprindo o mais destacado entre 57 mandados de prisão expedidos pela Justiça Federal. Porque Neudo (PP) comandava um esquema chamado de ''gafanhotos'', ou seja, uma praga infestando o erário através de cerca de 5.500 empregados fantasmas, que não trabalhavam, mas recebiam todo mês. Segundo a PF, os prejuízos aos cofres públicos, já calculados em R$ 320 milhões, podem chegar a R$ 1 bilhão.
Os gafanhotos foram a oitava praga do Egito. Entre nós, uma metáfora permite deduzir o estrago que eles fazem, tirando da população benefícios que poderiam ser adquiridos com o dinheiro desviado. Vorazes e insaciáveis, os gafanhotos da praga egípcia e os gafanhotos da praga moral que insiste em envolver o País em nefando manto, são destruidores implacáveis da ética, da moral e da cidadania. O gafanhoto-chefe ainda pretendia ser processado em fôro privilegiado, mas ainda bem o Superior Tribunal de Justiça disse não, juridicamente: proteger o exercício do cargo é uma coisa; afagar quem ocupa cargo, ou já ocupou, é outra, completamente diferente.
É preciso prestar atenção nas pragas. Na primeira delas, as águas tornaram-se sangue. Na última quinta-feira, um bando de policiais militares do Rio de Janeiro (um oficial e dez praças), foi preso sob a acusação de matar uma testemunha que tinha ido dois dias antes à Corregedoria da PM denunciá-los por torturas e extorsões. Pagou com a vida o que os policiais consideraram atrevimento. O comandante do Batalhão deles falou em ''processar'' (?) jornalistas que fizessem imagens dos acusados. Ou seja: confundiu tropa com bando. É incompatível. Foi, como não poderia deixar de ser, exonerado do cargo.
O fato é apenas mais um entre alguns dos que foram captados pela observadora da ONU, Asma Jahangir, que esteve no Brasil e trouxe à tona tudo isso que a gente conhece de cor e salteado. Só que algumas das nossas mais expressivas autoridades preferiram atacar a representante da ONU em vez de tomar providências. Aliás, ainda nos últimos dias a promotora pública Rosemary Souto Maior Almeida, de Itambé (PE), denunciou que está recebendo ameaças de pistoleiros do crime organizado na região, fronteira com a Paraíba. Querem matá-la. ''Deus sabe até quando vou aguentar. Não quero morrer''. Os inertes do Planalto falam numa burocrática reunião para tratar do assunto, o mesmo que levou à morte, no ano passado em Belo Horizonte, o promotor Francisco José Lins do Rego, que investigava a máfia dos combustíveis. A nona praga egípcia foi a das trevas. Até quando continuaremos mergulhados nelas?

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