Praga ameaça citricultura da Flórida Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 20 (AE) - Mais de 500 mil árvores cítricas já foram arrancadas e queimadas nas regiões de Miami e Fort Lauderdale desde o ano passado e outras 1,5 milhão serão destruídas nos próximos meses numa tentativa de conter a mais séria infestação de cancro cítrico que a Flórida já enfrentou.
É uma enorme ameaça, segundo a secretaria de agricultura da Flórida, que, junto com o governo federal, já alocou US$ 175 milhões para combatê-la. Em jogo está a preservação da segunda mais importante atividade econômica da Flórida, depois do turismo. No ano passado, a citricultura do estado movimentou US$ 8,5 bilhões e deu emprego a 140 mil pessoas. A Flórida é a segunda maior produtora de cítricos do mundo, depois do Brasil.
A Flórida Citrus Mutual (FCM), a maior associação de plantadores do estado, informa regularmente seus 12 mil membros sobre a evolução da praga pela internet (www.fl-citrus-mutual.com). Em seu mais recente boletim, a FCM confirmou a descoberta de árvores infestadas em pomares nas regiões de Palm Beach e Boca Raton, cerca de 8 quilômetros ao norte da região já submetida ao regime de quarentena, por causa da doença. Na área de quarentena, o movimento de pessoas nos pomares é limitado. Uma vez encontrada uma árvore contaminada, a solução imposta pelo governo e pela indústria é radical: todas as árvores num raio de cerca de 500 metros são destruídas. A descoberta do cancro cítrico fora da zona de quarentena põe em risco os pomares da Flórida central, que é a principal região produtora.
Este é o terceiro surto da doença em um século. Provocado por bactéria, o cancro cítrico manifesta-se sob a forma de nódoas escuras no caule e nos frutos, como uma espécie de ferrugem. A infestação atual veio da ásia e foi detetada em 1995 num quintal de uma casa na região do aeroporto de Miami. Altamente contagiosa, a doença espalha-se com a chuva, o vento ou pelo uso de implementos agrícolas contaminados.
O cancro cítrico já reduziu pela metade a produção estimada de limões na região sul da Flórida. Não há ainda estimativas seguras de quebra da produção em função da doença. Mas o que é ruim para os citricultores da Flórida não é necessariamente bom para seus concorrentes brasileiros, pelo menos no mercado americano.
As elevadas tarifas que os EUA aplicam às importações de concentrado de suco de laranja do Brasil e as preferências tarifárias dadas ao México, pelo Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), e à Costa Rica, reduziram substancialmente a participação relativa do produto brasileiro no mercado americano. Ela caiu de 90% do concentrado de suco importado pelos EUA em 1992 para 55% em 1998. Nesse mesmo período, as exportações do México cresceram mais de 800% ( de menos de US$ 7 milhões para mais de US$ 65 milhões) e as da Costa Rica, 600% (de US$ 4 milhões para US$ 18 milhões). Em valores correntes, os US$ 205 milhões que os citrocultures brasileiros venderam no mercado americano em 1998 significam menos do que os US$ 230 milhões faturados em 1992.
A menos que o Brasil obtenha concessões semelhantes às que os EUA fez ao México, durante as negociações para a criação da área de Livre Comércio das área (Alca) a partir de 2005, a participação brasileira no mercado americano de concentrado de suco de laranja parece fadada a diminuir ainda mais, com ou sem cancro cítrico da Flórida. Uma razão é que o regime transitório de quota que limita as exportações do México aos EUA termina em 2006.





