Dimitri do Valle
De Curitiba
A tese de doutorado do professor Bernardo Mançano Fernandes, que trabalha na Universidade Estadual Paulista (Unesp), revela que desde 1995, 20.605 famílias de sem-terra invadiram propriedades no Paraná. Em contrapartida, o número de famílias assentadas no mesmo período foi de apenas 6.708. O levantamento entra em contradição com uma constatação geral feita pelo professor na pesquisa: a de que as ocupações aceleram a regularização das áreas.
O estudo de Fernandes foi aprovado por unanimidade pelo departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) em dezembro. As considerações do professor, que é militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desde 1990, foram publicadas em reportagem do jornal ‘‘Folha de São Paulo’’, na edição do último domingo. O estudo abrangeu as realizações da Reforma Agrária na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Segundo Fernandes, desde janeiro de 95, quando FHC assumiu a presidência, até junho do ano passado, 299.323 famílias foram assentadas. O professor descobriu que 255.467 famílias, ou seja, 85,5% dos beneficiados em assentamentos, protagonizaram invasões para ter acesso à terra. O Paraná, de acordo com o levantamento, é o quarto Estado do País em áreas invadidas, mas o 15º em famílias assentadas.
Para o assessor de assuntos fundiários do Governo do Estado, Antônio Carlos Coelho, os números apresentados na tese de doutorado do professor não correspondem à realidade do Paraná. ‘‘Temos, segundo o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), entre 6,5 mil e 7 mil famílias. Estes são os números corretos’’, rebateu. Coelho acredita que o governo FHC ‘‘melhorou a qualidade da Reforma Agrária e dos assentamentos’’.
O assessor comentou que o MST não está mais interessado em defender o acesso à terra. ‘‘O insucesso de um assentamento interessa ao MST. Do contrário, ele enfraquece como movimento político que se tornou.’’ Ubiraci Stesko, um dos coordenadores estaduais do movimento, acredita que os números expressos na pesquisa são verdadeiros. Se a Reforma Agrária não avança no Estado, por causa das invasões, Stesko acha que é devido ao grande número de sem-terra que aguardam a legalização de suas áreas.