A primeira morte por febre amarela no Paraná foi confirmada nesta quinta-feira (7) pela Sesa (Secretaria de Estado de Saúde). A vítima é um homem de 64 anos que trabalhava na zona rural de Morretes (Litoral), onde foi confirmada a circulação do vírus na semana passada. Ele não havia sido vacinado e não estava na faixa etária recomendada para a imunização, que é de 9 meses a 60 anos incompletos (59 anos, 11 meses e 29 dias).

O homem morreu na quarta-feira (6) em Curitiba. Segundo a secretária de Saúde de Morretes, Lúcia Shingo, ele foi atendido no dia 28 de fevereiro, com quadro de febre e dor de cabeça. Foram feitos exames no dia 1º de março, cujos resultados foram obtidos no mesmo dia. No plantão do dia 2, os resultados alterados levaram o médico responsável a pedir a transferência aérea para a capital. O Estado não forneceu detalhes da evolução do quadro que levou à morte da vítima.

De acordo com Maria Esther Graf, médica infectologista do Hospital do Trabalhador e do Hospital de Clínicas, em Curitiba, a febre amarela é capaz de ocasionar desde casos leves até os mais graves, que podem levar à morte. Ela diz que, com a circulação do vírus no Estado, mais casos dessa natureza devem ocorrer.

"É preciso estar atento, enquanto rede de saúde, para suspeitar disso no momento adequado", diz a especialista, que explica que os sintomas podem ser facilmente confundidos com os da zika, dengue e febre chikungunya. "Pela potência de gravidade da febre amarela, é preciso que a rede esteja preparada, com medicamentos específicos que não são habituais e tecnologia para atendimento de alta complexidade. A rede precisa estar estruturada", explicou.

O secretário estadual da Saúde, Beto Preto, diz que o Paraná conta com hospitais estratégicos para o recebimento dos casos graves. Ele explica que o caso seguiu critérios de um protocolo de manejo que prevê transferências em quadros fulminantes - em que há a necessidade, por exemplo, de transplante de fígado. Segundo a secretaria, o caso recebeu atendimento adequado desde a entrada no sistema de Morretes.

Lúcia Shingo diz que foram seguidas todas as orientações para casos de "possível suspeita" para febre amarela. Ela explica que o município possui medicamentos específicos, mas não tem a tecnologia necessária para atender a casos mais graves. "Temos um hospital de pequeno porte, de 18 leitos, de baixa e média complexidade", disse.

CIRCULAÇÃO DO VÍRUS

Ainda não se sabe onde exatamente a vítima contraiu o vírus. O homem morava em uma região distinta da área de Morretes onde foram encontrados macacos mortos em decorrência do vírus. Com a confirmação do caso, a ação de "busca ativa" por não vacinados foi levada para a localidade em que o homem vivia.

Para Beto Preto, "é muito cabível" que o homem tenha sido infectado na própria região onde vivia, já que o mosquito transmissor tem a capacidade de se deslocar cerca de três quilômetros por dia. O secretário lembra que o vírus está em circulação e exige a intensificação das ações de imunização, embora o Paraná esteja "longe" de viver um surto. "Não há, hoje, uma epidemia. Porém, é nossa obrigação vacinar", disse.

O secretário informou que foram aplicadas, até 7 de março, cerca de 300 mil doses da vacina no Estado. "Vamos estender a vacinação por todo o Paraná, porque as pessoas têm mobilidade. Temos de fazer acontecer em toda a extensão do Estado."

A secretária de Saúde de Morretes diz que houve aumento da procura pela vacina no município após a confirmação da morte, mas que os agentes vêm encontrando dificuldades para imunizar a população. "Infelizmente, há resistência", contou. A imunização a partir dos 60 anos pode ser feita se houver recomendação médica.

PREPARAÇÃO

A infectologista Maria Esther Graf acompanhou uma série de ações realizadas no Paraná desde o ano passado para preparar a rede para o enfrentamento da onda do vírus. Já se sabia que a febre amarela chegaria por meio de corredores ecológicos a partir de São Paulo, onde houve 176 mortes pela doença em 2018. Além da capacitação das equipes de saúde, foram intensificadas medidas de imunização. "Estamos no caminho. Houve sensibilização, busca ativa de macacos, vacinação. Agora, diante de casos graves, a pergunta que tem que ser feita é se realmente temos uma rede estabelecida para o atendimento e manejo", disse.

Segundo Beto Preto, o sistema de informações de vacina contra a febre amarela no Paraná mostra uma cobertura de menos de 50% da população alvo. Ele evitou comentar se houve atraso, por parte do Estado, na intensificação da imunização diante da perspectiva de chegada do vírus. "Estamos envidando todos os esforços possíveis para enfrentar, olho no olho, e não deixar virar surto ou epidemia."

Segundo a Sesa, foram confirmados desde janeiro oito casos da doença no Paraná, incluindo o que levou ao primeiro óbito. Ainda estão em investigação 62 notificações e já foram descartados 129 casos. Os confirmados são de Curitiba, Antonina, Morretes, Campina Grande do Sul e Adrianópolis. A maior parte foi contraída em Guaraqueçaba. Além de Morretes, também foi confirmada a morte de macacos pelo vírus em Antonina. Em 12 municípios há mortes de primatas sob investigação. Em outros 15, não foi possível coletar amostras para exames.

LONDRINA FORA DE RISCO

Diferentemente das regiões do Vale do Ribeira e do Litoral, Londrina não trabalha com previsão de possível entrada da febre amarela na cidade, mas está preparada para identificar e atender a eventuais casos, incluindo de alta complexidade, diz o secretário municipal de Saúde, Felippe Machado.

Ele diz que o município também dispõe, em todas as unidades de saúde, de doses da vacina suficientes para toda a população na faixa etária recomendada. Segundo o secretário, a cobertura vacinal hoje é de 95% para crianças abaixo de 2 anos e de 64% para a população em geral. "Estamos atentos em relação aos casos que estão sendo confirmados no Estado, mas não há motivo para alarde, uma vez que não tivemos nenhum sinal de possível circulação em Londrina", destacou.

Machado diz que a principal forma de entrada do vírus na cidade seria por meio da importação, no caso de alguém ser infectado em locais de risco e voltar. "Mas temos uma central de epidemiologia muito atenta a quaisquer sinais. Fizemos orientações e capacitações no sentido de atualizar os profissionais no sentido de manejo de suspeita de febre amarela para que não se confunda o diagnóstico", garantiu.

A maior dificuldade, disse o secretário, é conscientizar as pessoas da importância da vacinação. "Temos uma onda antivacina muito forte, muitas vezes impulsionada pelas redes sociais, que considero irresponsável e inconsequente."

mockup